F. Scott Fitzgerald

Postado em July 25, 2008
Categoria: Literatura | 10 comentários

__O que é um cavalheiro?

__É o homem que prefere a primeira edição de um livro à última edição de um jornal.

Vie dês Martyres

Postado em July 16, 2008
Categoria: cotidiano, opinião | 3 comentários

 

A sério posso dizer que estou a carecer de um ofício que me ocupe, vá lá, umas seis horas por dia. É com alguma dor que o digo. Nas costas, mais precisamente, pois tenho passado os últimos dias na horizontal, afundado na cama (está frio, não é?) com o laptop ora apoiado sobre o corpo, ora sobre o criado. É que nas férias, vocês bem o sabem, as obrigações mínguam.

As notícias, parte delas, me chegam pela TV – pode parecer vulgar dizê-lo, mas é que assistir a telejornais e programas correlatos não me é exatamente uma atividade corriqueira. Num mundo ideal eu não teria tempo para isso. E o que vejo é tão bizarro que mal tenho vontade de comentar, fatos cujas interpretações preferiria que me passassem ao largo. Todavia temos aí, país a fora, comentadores e comentaristas de toda sorte e, como isso é um conforto dos diabos, sigo trocando Dantas por Dante para ver no que dá, e acabo metido nalgum tipo de inferno de qualquer modo.

Com certo deleite desligo a TV e volto às revistas e aos livros. Exame, Piauí, uma coletânea de contos franceses em que leio Stendhal, Balzac, Merimée, Gautier, Maupassant, Verlaine e Mauriac, para citar o mínimo. Esforço-me em entrar nesse estado de alienação voluntária e logo me vêm os negócios da China atormentar. Logo me cai sobre a cabeça a urgência dos investimentos necessários à cerimônia de casamento na qual devo ser aquele a envergar um fraque no ano porvindouro. E vou pegar um café. Se fumasse, fumaria um cigarro enquanto esse é ainda um prazer lícito, possível.

Ligo para um amigo ilustrador a fim de propor a criação de uma revista. Está na moda. Não encontro o amigo e ouço algo – teria sido alguma interferência? – a dizer que isso é idéia vaga, boba e menos importante na atual conjuntura. Fosse na parte da manhã eu teria discutido o assunto, mas deveras não estou para debates no meio da tarde.

Daí vou ler alguns senhores. Esse ótimo artigo do Pedro Sette câmara, esse post do Alexandre S. S. e os últimos e muito bons textos do Adriano. Ler alguns dos blogs que temos aqui, alguns de gente séria, mas nem por isso sisuda, é em muitos níveis preferível a ler jornais (especialmente em tempos de campanha política) ou a assistir TV.

E é daqui, de cima da cama e de sob os cobertores, que vejo com olhar senhoril e indulgente (e enfadado) o Estado a brincar de polícia & ladrão – brincadeira em que os papéis se confundem, ou são tacitamente revezados. Contudo daqui também diviso, felizmente, umas poucas almas que pairam saudáveis sobre o leite derramado.

em face dos últimos acontecimentos

Postado em July 15, 2008
Categoria: Literatura | Um comentário

“Há muita diferença entre uma mulher bonita e uma mulher costureira. Se uma mulher bonita, reconhecida como tal, pusesse uma touca, um vestido de guingão e um avental de seda, sua vestimenta, sem dúvida, fá-la-ia parecer uma bonita costureira. Se, porém, uma costureira se enfeita com um chapéu, uma capinha de veludo e uma saia de Palmira, não estará obrigada, por isso, a ser uma mulher bonita. Ao contrário, é provável que tome o aspecto de um cabide, o que não será de estranhar.”

Alfred de Musset [1810-1857]

Permanent daylight

Postado em July 8, 2008
Categoria: cotidiano | 6 comentários

Por esses dias, enquanto esperava para dar cabo de uns assuntos de ordem profissional ali pelas paragens do Santo Agostinho, fui, depois de uns bons quatro anos sem sequer pensar em fazê-lo, ocupar a ponta de um banco de igreja às 3h da tarde. A Paróquia de Nossa Senhora de Fátima, uma capela bastante bonita, ganhou um charme a mais àquele horário. Descobri que visitar uma capela no meio da tarde faz bem para a fé, além de lembrar muito aqueles filmes em que o herói em seu sofrimento vai, num dia de ócio, ter com a imagem do Cristo uma boa conversa, sempre à tardinha, quando não há ali mais que uns gatos pingados, como dizem, espalhados pelos bancos de madeira.

 

Outra vantagem muito óbvia de visitar uma igreja à tarde é a ausência do padre. Há, sim, padres mui simpáticos por aí, mas o discurso todo é invariavelmente maçante e termina por ofuscar a beleza das pedrarias, das efígies, da arquitetura, das toalhas. E não havendo párocos, não há louvores cantados com aquele sincero e esforçado desafino.

 

A igreja é sim a casa de Deus, especialmente se vazia.

artificialmente aromatizada

Postado em July 3, 2008
Categoria: cotidiano | 8 comentários

Continuo cercado de livros por todos os lados e, no entanto, nota-se que tenho escrito muito pouco sobre literatura, porque antes eu era um crítico - vivia a procurar pontos criticáveis nas obras que lia - e hoje estou apático porque, ironia das ironias, vejo falhas em todos os lugares e elas não me causam dor, não me causam pranto. Visualizem uma caixinha de Ferrero Rocher; notem que cada papelzinho doirado, aquele que envolve os bombons, possui dobras e frisos e brilhos distintos. Dou um passo a mais e lhes peço que ponham em mente o Ferrero em si: por que diabos foram pôr uma avelã inteira em meio à melhor parte do bombom? Eis aí um mistério que, exatamente por não ter explicação, tudo explica: a vida é tipo uma caixa de Ferrero Rocher.

well

Postado em July 2, 2008
Categoria: oh | 8 comentários

Estou a ponto de iniciar um estágio na política e passei os últimos dias ociosos a assistir The Sopranos. E decidi, assim do nada, que vou fazer aniversário hoje. É uma vida razoável.

Postado em June 25, 2008
Categoria: música | 17 comentários

Que me perdoe o senhor Tom Waits, mas estou a ouvir as músicas do Anywhere I lay my Head não pelas músicas em si, mas pelo decote, para ser simples, da agora cantora Scarlett Johansson.

E notem que há uma coerência aqui: já vi uns bloody biltres reclamando que o ruim do mp3 é o fato de não se poder “pegar no material”.

(…)

Exatamente.

voyeur

Postado em June 20, 2008
Categoria: Take me to the place where the white girls dance | 21 comentários

I Just don’t know what to do with my vicious. Vocês vão se lembrar que há algum tempo escrevi por aqui sobre a proposta de ménage à trois que fiz à minha noiva. Ela, para derrubar o meu argumento, disse sentir-se duas mulheres e eu, com cara de bobo, emudeci desde então.

Mas o vinho tem lá os seus efeitos e, recentemente, voltei ao tema com a delicadeza que só o torpor nos proporciona, e porque eu sou uma flor de obsessão, ou não uma flor – que sou excessivamente machista – e sim um, vá lá, cravo. 

Esses anos todos fizeram nascer entre nós uma intimidade muito – ah, sim – bonita, cuja manifestação dá-se em momentos específicos, sob determinadas circunstâncias, sobre indeterminado leito. Voltei ao tema como quem volta a fumar após uns meses sem inalar nicotina, e isso quer dizer “com imensurável deleite”, se é que me podem compreender. 

E como são já bem conhecidas as minha idéias fixas, ela se permitiu ouvir atenciosamente, com os olhos até, o prólogo dos meus desejososo propósitos. Em nenhum momento ouvi qualquer negativa que fosse definitiva, e todas as suas expressões queriam dizer algo como “talvez” ou “quem sabe um dia”. 

A maior pedra no meu caminho, ou no meu sapato, está no fato de ela ser profundamente heterossexual (uma mulher absolutamente heterossexual, onde é que já se viu?). Porque, não sei se isso lhes está claro, a minha satisfação não depende unicamente da presença de uma outra nynphet à cama conosco. Sem a possibilidade de relações lésbicas eu não assino o contrato, e nada feito – ou assim é que deveria ser.

Mas a minha pequena, vocês sabem, é administradora por formação e possui aquele cérebro prático, ainda que bastante liberal, e, assim, pôs sobre a mesa – sobre a cama, digo – uma contraproposta que direi mesmo irrecusável: se eu abdicar de algo que ela, como minha noiva, me deve há tempos, ela dirá sim ao meu cândido convite e participará da minha perversão desde que [cláusula primeira] seu papel seja apenas o de uma voyeur.

Esvaziei a taça e disse, beijando-lhe a fronte: “estamos conversados”.

quadrinhos de esquerda

Postado em June 20, 2008
Categoria: cotidiano | 10 comentários

Por esses dias minha classe na faculdade precisou apresentar trabalhos sobre mídias alternativas e tal. Num sorteio meu grupo saiu com o tema “blogs”. O.k., mas não é disso que quero falar. Quero falar do convidado de um outro grupo, personagem, dizem, afamado por essas paragens: um quadrinista independente. Confesso que já ouvi algo a respeito, mas nunca o vi nos engarrafamentos - que é onde ele vende suas revistas, títulos como “o apocalipse de belo horizonte”, “capeta do vilarinho” etc.. Seu nome é algo como Lacarmélio, mas todos que o conhecem o conhecem por Celton, o personagem central de suas histórias. Bem, lá estava ele, de pé no meio da classe, com uma mochila sansonite amarrada ao cinto e cheia de, vocês sabem, revistas. Usava uma camisa na qual lia-se a frase “leia Celton”, escrita à caneta, uma calça social e tênis all star. Deve ter uns 50 anos, o senhor; talvez mais.

De maneira um tanto grosseira, falou da sua carreira, de como começou a desenhar, de como seu trabalho foi rejeitado pelas editoras durante tanto tempo até que decidiu, porque sim, tornar-se independente. Aquela balela.

Num certo momento, quando falava que inspiração não existe, que seu ofício é 99% transpiração, essas coisas, pegou numa cadeira e:

__Se eu quiser escrever uma revista sobre esta cadeira, eu posso fazê-lo. Há nela muito a ser contado, várias histórias, várias lições…

E eu, até então mudo, singelamente, perguntei:

__E isso venderia?

Aí uma colega me deu uma cotovelada e eu olhei p’ra ela com aquela cara de “eu disse alguma coisa errada?”.

Postado em June 10, 2008
Categoria: Literatura | 8 comentários

Vá lá saber se eu devia tê-lo feito, mas acabo de passar de Wodehouse para Gorki.

mon chou

Postado em June 6, 2008
Categoria: oh | 3 comentários

“Fiel no que toca ao sentimento, mas não em relação à carne”, disse-me, com muito jeito, uma pequena com quem eu há muito não falava. Minha atitude não foi das mais espalhafatosas, mas creio ter erguido um pouco a sobrancelha, posto que era a mim que ela se referia. Além disso, talvez eu tenha emitido um resmungo, ou um sussurro inaudível, não me lembro. O que lembro é que não me esforcei muito em convencê-la que sou, sim, também fiel no que concerne às relações carnais, ainda que com algumas xícaras de café e longos passeios entre a literatura e pornografia, à minha couve (lá pelas paragens da Europa chamar uma mulher de couve é um gesto muito carinhoso).

nabokov

Postado em June 4, 2008
Categoria: Literatura | 4 comentários

Leiam isso. E olá.

obrigado, Jeeves

Postado em May 28, 2008
Categoria: cotidiano | 12 comentários

 

A fim de causar alguma invejinha, só queria dizer que cá estou a tomar iogurte de morango, daqueles com polpa e tal, enquanto leio P. G. Wodehouse. O que? Você está a trabalhar? Shame on you, my poor devil, shame on you.

in bed

Postado em May 26, 2008
Categoria: cotidiano | 6 comentários

Ainda me estou a recuperar de uma gripe desgraçada que me acometeu na última quarta e me deixou in bed até ontem, quando minha pequena veio, cheiro de talco e uniforme engomado, cuidar de mim.

 

O que é ter uma mulher para cuidar de você. Quando ela chegou eu já me sentia razoavelmente bem, mas fiz uma questãozinha de estender um pouco o meu lastimável estado a fim de estender também as diligências a mim dedicadas. Quando o jantar me é servido na cama ou quando me compram danoninho eu juro que entendo as crianças mimadas.

 

O instinto maternal de uma mulher é algo mesmo bonito, e por isso é que eu não consegui esbravejar quando ela chegou e abriu as cortinas para deixar entrar o sol (para “arejar”, ela disse). Mas eu ainda resistia, ou desistia, na cama, com as mãos sobre os olhos, protegendo-me da luz, quando ela, numa voz que mais me pareceu um trovão, imperativamente, disse : “Levanta-te e anda” (sorry se romeceei demais, não pude evitar). Obedeci. Fui ao banho, almoçamos e ela me propôs irmos às compras. Compramos roupas e fomos comer pizza.

 

Se você me visse lá, sentado na praça de alimentação, conversando e tomando coca-cola gelada, eu certamente lhe pareceria muito bem. É que é saudável ficar doente às vezes.

Φιλοσοφία

Postado em May 22, 2008
Categoria: oh | 8 comentários

O que separa a filosofia da pornografia é a pausa para o cigarro.

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