O prazer da leitura
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May 6, 2008
Categoria: Arte | 2 comentários
Eu estava ainda lidando com a desordem de uma mudança eterna e procurando um livro da Susan Sontag, passando por uma parada sobre “Las viejas putas” de Copi, e mais uma olhada no livro com os escritos e entrevistas de Louise Bourgeois onde ela disse que a vida é muito engraçada e muito ridícula; e aí então foi que o Diego, por médio de um mail, decidiu convidar-me para escrever umas linhas, aqui no Perambulagens.
Hoje de manhã acordei com a idéia e o sentimento de que talvez nada supere o prazer da leitura. A trama que imprimirá nas nossas cabeças será densa e também leve, ocupando espaços cada vez maiores, até tornar-se uma necessidade diária. Uma rota a levar-nos por caminhos, até então, insuspeitos; descoberta do mundo.
E como esse prazer estará destinado a uma pequena parte de nós, já que a maior inversão do Estado (estadão?) estará destinada à industria da diversão (entertainment), aonde serão jogados altos, gordos recursos para manter aos cidadãos uma soneca fácil, e se possível eterna, longe das descobertas e aberturas perigosas a que pode levar a leitura de poetas, filósofos e outros seres que convertem a escritura num possível raio de luz.
Bom, a “grosso modo”, - e sem entrar nos tenebrosos meandros a que nos pode levar essa apropriação da cultura feita pelo Estado - mais ou menos foi o que pensei intermitentemente parte do dia; e já transcrito, é melhor agora levantar daqui e fazer umas torradas, para depois continuar lendo.
***
Este post é de autoria de Erna Alfaro, poeta chilena e amiga. Um dia talvez eu conte de como nos conhecemos e de nossa amizade.
Todo mundo é tudo na web 2.0
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March 23, 2008
Categoria: Tecnologia | 7 comentários
Partindo de um pressuposto à primeira vista interessante, o de que o usuário sabe o que é bom, e que ele pode fazê-lo (algo meio punk, do it your self), a web 2.0 abre suas portas para quem fizer, seja lá o que for.
Essa tal web 2.0, que anda chamando a atenção de todo mundo, é na verdade uma maneira cool de dizer que em um site desses você não precisa de muito critério nem ser lá estas coisas sério, afinal é tudo cada vez mais de massa e menos burocrático. Imagine-se quanta burocracia que há em você aprender a pegar em uma câmera profissional, quando há a webcam. Não, meu caro, você não é dos burocratas. Uma web cam à mão, uma idéia, puf, és o diretor!
O importante é o instante, nada de perder muito tempo com o que se expirará rapidamente. Em um site de vídeo, como o Youtube, você é o diretor; no Digg, você é o editor de um jornal (ou algo que o valha). Uma horizontalização das relações de hierarquia, exceto pelo fato de que há um investidor sobre tudo isso, que talvez não saiba muito além de pegar os e-mails.
Esta nova onda, que não é temporária e veio para ficar, me parece, tem sua força no desejo que a pessoa tem. As pessoas querem ser, querem fazer. Compram-se idéias, vendem-se satisfações. Você é web 2.0.
Aniversário em pleno carnaval
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February 10, 2008
Categoria: Coisas, Cotidiano, Estética | 7 comentários
Este post vem meio atrasado. Comecei a escrevê-lo ainda na Rodoviária de Belo Horizonte, terça-feira última, numa lan house. Eu voltava de Ouro Preto e teria de esperar umas horas até vir meu ônibus. Acabou o tempo contratado e, chegando a São Paulo, trabalhei muito, sem tempo de respirar. Eis o post, às pressas.
*
Pois é, meus caros. Imaginem que meu aniversário veio a cair em pleno carnaval. Não me lembrava de já me ter acontecido isso, que teoricamente é uma catástrofe. Mas explicar-vos-ei por que não foi tão mau assim. Fui passar carnaval em Ouro Preto pelo simples motivo de lá ainda estarem vários amigos que fazem o curso de Letras da UFOP, que abandonei. O carnaval não me agrada, mas s companhias e as bebidas sim. Além do mais, era a única folga visível.
Não é por ser uma cidade com uma bela arquitetura que as comemorações lá são menos vulgares, esteticamente falando. Como era de se esperar, muita música ruim e dança de ir mexendo até o chão, que está sempre imundo (suor, cerveja e urina). Vocês sabem, eu não sei dançar.
O aniversário. Após ter acordado lá pelo meio-dia, vislumbrei pela janela uma merencória chuva. Entre um cigarro e outro, um telefonema que me parabenizava e outro, uma tarde semi-entediante foi-se acabando. Como só havia três pessoas na casa, jogávamos buraco um contra o outro, bebendo muita Coca-Cola, sendo que o vencedor jogava contra quem estava “de fora”. E todo mundo só queria estar de fora. Mas não mais do que de repente, eu e os meu amigos nos aprumamos. Bem vestidos, cabelos penteados e lavados, demos a graça de nosso ar na rua entupida de gente. Rompemos a multidão com nossos passos ritmados numa espécie de fuga, entretanto jamais fora do compasso intuitivo.
Dirigimo-nos, pois, ao melhor restaurante da cidade. Aqui, nas paredes havia quadros que podiam ser bons e a mobília, de madeira de lei, nos abrigou enquanto pessoas vindas do carnaval iam e viam. Comemos algumas boas coisas, bebemos boa cerveja etc. E então fechamos a conta brindando a superioridade de nossos espíritos aristocráticos com doses de Chivas 12 anos.
Em seguida, dirigimo-nos a pé até um bar que não é de meus tempos de estudante em Ouro Preto (oh! esqueço de dizer: eu estava em Mariana na verdade - eu uso OP para me referir a ambas as cidades, saibam) . Mais uma vez passando pela multidão que, em plenos farrapos morais e estéticos, estranhava aonde iam pessoas de tamanho requinte. Quer dizer, eles deviam exclamar para si mesmos, indignados, que porra é essa, estamos em carnaval etc.
Mas nós, meus caros, antes de tudo estávamos indo ao Scotch Art, bar construído em uma casa de arquitetura barroca, com boa música popular, bebidas e charutos. Sabíamos de nossa responsabilidade para com a estética universal. Comemos alguma coisa mais (era poética a culinária de lá), conversamos e - para que a noite se fechasse com uma chave de ouro parnasiana - bebi sublimes doses de absinto e acendi um charuto cubano, soltando baforadas densas. No bar dançava sensual a fada verde, que reprimia qualquer átomo que estivesse alheio ao nossa espírito dândi.
*
E lá ela continua eterna, e nós em sua retina que se surpreendera e petrificara-se.
Elogio do prazer
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January 26, 2008
Categoria: Uncategorized | Comente
O que é a vida? O que é o prazer, sem a dourada Afrodite?
Que eu morra, quando estas coisas já não me interessarem:
o amor secreto, as suaves ofertas e a cama,
que são flores da juventude sedutoras
para homens e mulheres. Mas quando chega a dolorosa
velhice, que faz até do homem belo um homem repulsivo,
tristes preocupações sempre lhe moem os pensamentos
e já não sente prazer em contemplar a luz do sol,
mas é odiado pelos rapazes e desonrado pelas mulheres.
Assim áspera foi a velhice que o deus impôs.
(Mimnermo. Poesia grega de Álcman a Teócrito. Tradução de Frederico Lourenço. Lisboa: Cotovia, 2006)
***
Fui hoje à Livraria Cultura, esse mega-shopping de livros, com minha mãe, que já queria há algum tempo conhecer. Aproveitei a oportunidade para trocar o Poesia completa de Rimbaud, que eu comprei ali mas estava com defeito. Sim, vieram páginas invertidas (a 173 de junto da 178, talvez seja isso, e muito mais). Um azar, logo eu que já tive problemas no início de 2006 para comprar o livro (nunca comprem pela Livraria Pau-Brasil, uma confusão sem tamanho…), e que esperava tanto pela reedição. Mas acabei levando/ganhando este livro de poesia grega. Enquanto minha mãe olhava seus livros de saúde e felicidade, apaixonei-me por este livrinho. Salvo engano, era a edição que, xerocada, os professores da USP nos passavam. Não vêem como a xerox fotocópia é uma bela forma de marketing?
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Estou ainda lendo o Reparação. E pretendo continuar agora, após compartilhar com vocês esse belo poema.
Esta vez medo
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January 21, 2008
Categoria: Coisas | 5 comentários
Como se acostumaram, combinava-se de ir ao mesmo bar de sempre, aquele cujos rostos da moda sempre passavam batidos, mas para alcançá-lo bastava descer aquela rua, após a rápida condução. A pretensão de um lugar outro. Acertou-se, desta vez, na estação de metrô. Encontraram-se umas nove da noite, pediram informação ao fiscal de bigode sonolento, desceram ruas, dobraram algumas esquinas etc. Ei-los lá. A região mais vazia do que se escutava dizer, ali todo dia é cheio, seria iminência de chuva ou por que era um feriado em plena quarta-feira? E os bares, de se assustar, tinham a cerveja além do que o bolso permitia, esperava-se ficar por ali até haver ônibus. Depois de o sol ter iluminado as ruas. Como a região era de muitos bares, haveriam de encontrar um onde a cerveja fosse mais barata. Foram duas cervejas até que chegasse a hora de fechar esse boteco sujo, mais caro que aquele bar saudoso.
No bar ao lado descoberto, tranqüilizaram-se, a cerveja mais gelada, o atendimento melhor e só tinham é de fazer o tempo ir-se rapidamente, para que cada qual pegasse seu ônibus. Mas a umas três da madrugada, desolados. Viam as portas descidas e ventava e o norte, a esmo, por sorte não era prejudicado, foi pouca cerveja que beberam. Na esquina, ali na frente, havia um ponto de taxi. É de se juntarem os trocados, ir-se dali, o tempo é que não se irá depressa. Pergunta se havia algum bar 24h. Mas o taxista, intransigente em busca de um passageiro, recomendando ir embora, aqui não era bom andar à noite (quando as categorias de Kant não existem).
Gentilmente agradeceu e, lembrando de onde vieram, pegaram a rua, reconfortaram-se em silêncio, cada um em seu próprio passo, sim veio-se por aqui. A rua se alongava como um paciente anestesiado sobre a maca; de relance às vezes parecia diferente, um abismo, mas é certo que era esta, lembrava deste bar. Iam-se como se deve prosseguir, sob arbitrários implícitos. Para não dizer que as ruas estavam vazias, vinha alguém na frente, alguém suspeito?, mas se lhes passou tão logo quanto surgiu.
Você com o guarda-chuva o que está olhando? E antes que se pudesse premeditar reação, garrafa instantaneamente estourou atrás de nós, seus cacos se viam voando. Os olhos do sujeito deviam ser de fúria, não os vi, quando me percebi corria com fôlego que não tinha. O amigo vinha um pouco atrás, eu avaliava em esquinas a solução, um bar, olhava para trás e ele nos perseguia. Parou um carro, não vi, vi quando o amigo afoito pedia socorro. Ele mexia no lixo. Tentei falar com o motorista, não entendia, não ligava, procurando alguma rua no guia da cidade.
Se conseguimos lhes explicitar a difícil situação, sem conhecê-lo, risco havia, mas vendo que ele voltava do lixo com outra garrafa, nos falou com um olhar que deve ter sido irônico, debochado, há um café 24h aqui em frente. Um deus ex-machina de estragar qualquer literatura, por sorte é um post. Com um suspiro duradouro e aliviado e as pernas instáveis, à beira de eu não ter respiração , enfim viam-se seguros, bastou atravessar rápido a rua em linha reta, acendeu-se um cigarro, isso não me era bom embora necessário, tentava-se explicar ao casal que ali estava a terrível perseguição. Ele apontava o dedo rindo-se, não é aquele magrelo passando? Passou seco, com a garrafa erguida numa das mãos, ele indo aonde quebrá-la.
Uma lembrança, de repente
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January 20, 2008
Categoria: Arte, Literatura | 5 comentários
Quase três horas da manhã de um domingo que ainda era a persistência de um sábado morno e de arrumação da casa. Eu lia Reparação, de McEwan. A princípio, tentando algum motivo para dormir. Mas a leitura, no entanto, me mantinha atento às nuances do texto, eu de fato o estava lendo com a devida atenção. No romance, e eu estou em seus primeiros capítulos ainda, há a Briony, menina de treze anos cheia de pretensões literárias. Ela escrevera uma peça, e agora a dirigia. Veio-me à cabeça, de repente, o fato de um escritor, não sei qual, dizer que aos dez anos tinha escrito uma peça. Eu aos dez anos nunca tinha escrito nada, pensei.
Mas não é que minha memória involuntária me traz um fato muito curioso! Pois eu, aos dez anos, escrevi uma peça – mas isso estava absolutamente esquecido em algum lugar de minha memória. Foi para as aulas de religião. Lembro que o último capítulo do livro da matéria (na faculdade se diria disciplina ou cadeira) era sobre a campanha da fraternidade, e faríamos algo especial baseado nisso. Salvo engano, o tema era “perdão”. Certamente não lhes interessa, mas no caso de sim: consulte-se qual foi o tema da campanha da fraternidade de 1997.
Numa noite, após ter feito o dever de casa e já ter jogado bola (jogar bola era o que eu me lembrava de meus dez anos), sentei-me, peguei duas folhas de papel sulfite e comecei a escrever com uma Bic. Foi tudo razoavelmente fácil: pessoa que passava por dificuldades financeiras reencontra um antigo conhecido que está bem de vida porque virara ladrão; este o inicia no mundo do crime, mas na cena seguinte são presos. Passa alguns minutos na cadeia, e quando sai procura emprego – mas ninguém lhe concede oportunidades, porque ele tinha sido preso. E a peça acabava, feliz, quando alguém lhe tinha dado uma chance de recomeçar. Mas a única coisa que me lembro de dificuldade em escrever era o fato de escolher nomes: familiares, amigos, que nomes dar? Se eu usar este, vão pensar que estou me referindo à pessoa etc. Deve ser por isso que escolhi a poesia.
Naturalmente toda a peça é besta, não vem ao caso. Mas é que escrevendo sobre, há também a rememoração. É delicioso e instigante encontrar, em seu passado quando se detestava a literatura, algum elo com você agora, pretensiosamente homem das letras. Como se, por um elo frágil, você se reconhecesse mais em algum lugar distante. Uma surpresa.
Conhecimentos de tecnologia e a poesia
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January 5, 2008
Categoria: Arte, Poesia, Reflexão | Comente
Não pouca gente diz que eu, enquanto poeta, saio na frente por ter bons conhecimentos de informática e web. E que eu deveria usar meus conhecimentos na poesia. Para a poesia, de certa forma, uso-os. Não especificamente em poesia, sim para os bons textos. Veja-se o Breviário, por exemplo. De certa forma ele foi possível por eu ter conhecimentos, digamos, “avançados” de tecnologia. Mas, oras, não há poesia que precise de tecnologia.
Podem os poetas escrever diretamente no computador (o que deve ser difícil, já que não se alcançam as possibilidades do papel), podem poetas entre si se comunicarem via e-mail, e até chat. Tudo isso pode ser uma facilidade ao aspirante de poeta, e mesmo ao poeta formado. Contudo, façam-me o favor, poesia nada tem a ver com tecnologia, à parte essa chula rima.
Desculpem se desprezo estes movimentos todos que se utilizam da tecnologia para pretensamente produzir arte. Pode até ser que, um dia, quem sabe? Mas qualquer coisa deste sentido nas próximas décadas está absolutamente fadada ao fracasso, posto que, em menos de cinco anos, uma solução informática pode ser percebida claramente ultrapassada (tecnologicamente limitada).
Um instrumento musical é capaz de sons que nem o ouvido humano nem os formatos digitais são capaz de perceber/gravar. Uma câmera digital, para determinadas necessidades, é inviável: porque sua resolução de 10mb pixels inviabiliza que seja impressa a foto em determinado tamanho (tamanho gigantesco, claro) mantendo-se a qualidade. As pinturas, pobres elas. Sofremos porque não podemos vê-las como merecem ser vistas – no original, inclusive sem os limites de correntes e faixas amarelas de um museu, devem ser avaliadas de perto. Quem dirá na tela de um computador!, onde tudo é dividido em meros pixels. Meros mesmo, porque muitas vezes o formato em pixel não é suficiente aos próprios profissionais de web.
Conservador? Devo sê-lo, afinal prefiro um livro a um pdf; se gostasse tanto de música, um cd (se é que ele é suficiente) a uma mp3 de alta qualidade; uma tela original a uma reprodução em jpeg. O texto, no entanto, ainda pode ser reproduzido em qualquer meio, porque é o mais artificial, o mais “abstrato” dos meios. E o maior inconveniente deve ser mesmo a luz que um monitor emite.
A poesia, portanto, ainda que seja a mais fácil das artes de ser transportada, é a que menos aproveitaria os benefícios da tecnologia. Ou diga-se, então, como eu deveria utilizar meus conhecimentos de informática na poesia? O máximo, o máximo, pode ser a reflexão que este mundo em seu auge e tão limitado pode me proporcionar. E se eu tiver arte suficiente para fazer isso em verso. O que é outra história.
Avaliando o que perdera
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January 1, 2008
Categoria: Cotidiano | 7 comentários
Chega o fim do ano e ficamos mais sentimentais. A maioria dos blogs que leio está em seu balanço de fim de ano. E eu, influenciando por meus blogueiros preferidos, mas também por esta época, não faço de outro modo. Avalio o que perdera, para citar um verso do Drummond. Foi um ano longo este de 2007, muito longo. Ano de mudança, ano difícil, ano de (re)conhecimento e ano de preparação de alguma coisa que de certa forma já está a caminho.A princípio, em Salvador, percebi mais claramente que coisas em nossa vida podem ser eternamente perdidas, só persistindo na memória. A mim a vida de certa forma foi sempre assim. Também por ter mudado muito de cidade; assim, nunca fui de manter muitos amigos ou coisas. Mas, quando retorno a um lugar, posso muito bem revisitar algumas situações. Em Salvador procurei vários antigos amigos, sem sucesso. Coisas ficam para trás e pronto. Lembro-me de um dia em que desci ao playground do prédio de meus avós e fiquei, então, fumando um cigarro; uma sensação estranha, já que nos tempos em que ficava ali jamais eu imaginaria que um dia eu fumaria. Também era o lugar onde eu ficava com os amigos, quando criança e adolescente.
A seguir, houve a ida a Belo Horizonte; visitei um amigo da faculdade. Após alguns dias ali, segui a Ouro Preto, onde eu já iniciei o curso de Letras. Lá foi o primeiro lugar, ao que me lembro, de onde guardo amigos até hoje. Confirmou-se que, mesmo com o tempo, continuamos amigos; ainda que distantes, ainda que esse pessoal todo vá se separar, retornando cada um a sua terra natal. O nosso parece que se perderia mais pelo espaço, não tanto pelo tempo.
E, completando o percurso, cheguei a São Paulo. Voltaram as aulas, reencontraram-se os poucos e bons amigos que se fazem numa cidade como esta. Lembro-me, no curso das semanas, minha patética descoberta de Meursault – mas essencial para minha formação; a descoberta de uma espécie de anarquismo só do próprio ego, uma viagem pelo estrangeirismo. Acho que foi minha queda, efetivamente conhecia o mundo. E, mais tarde, por ainda ser volúvel, veio um radicalismo às avessas, um deslumbramento do conservadorismo, uma tentativa (falha) de se tornar católico de verdade etc. E, quando isso tudo passa, os dois lados, o espírito se acalma e pode-se especular melhor o que somos.
É claro que isso não foi tão simples, tendo durado boa parte do ano. Esses mergulhos deram reviravoltas em minha vida; chegou a hora em que quis largar a faculdade de Letras, como se partisse de uma decisão verdadeiramente racional (mas faltara eu me considerar a mim mesmo), que vinha acompanhada de uma decepção de mim enquanto poeta. Quis trocar de lado, pensar numa vida financeira, como se abandonasse a ilusão adolescente e inócua de ser poeta. Este processo também é longo, afinal veio da descoberta de que não se poderia levar a poesia esperando o instante em que seu gênio, como um Rimbaud, deslancharia.
Tendo decidido fazer Direito, iniciei o cursinho. Mal no segundo mês eu já o tinha largado. Só assim, levando uma patada, pude reconhecer meus próprios limites. Enquanto ia-me desviando do cursinho, voltava a tentar trabalhar via web: iniciei uns projetos, tentando de alguma forma estabelecer-me. Por alguma sorte, consegui um emprego de verdade. Trabalho com webdesign.
Mas as dúvidas quanto ao futuro não pararam. Foram dois meses difíceis, de certa angústia, de trabalho e projetos pessoais, de certo desespero. O trabalho me cansava, afinal pegam-se ônibus e trem, à parte o trabalho em si. A minha sorte foi, como já postei, ter ido a Itajubá e ter refletido melhor o que eu já especulava para o próximo ano. Assim, larguei mão de todos os projetos pessoais, que mal davam retorno e cansavam muito. Decidi, enfim, voltar à faculdade de Letras, afinal tenho de reconhecer que ainda tenho o que aprender. Volto, acredito, mais maduro, com mais experiência; também já não dependendo de luxos familiares; ganho eu mesmo meu dinheiro e gosto do que faço. Volto sabendo o que quero, o que me é importante. E a Literatura é uma das coisas mais importantes. Quero estudar muito, dedicar-me profundamente a ela. Lê-la. Entendê-la.
Querer ser poeta. Durante algum tempo, havia o querer ser poeta. O achar-se gênio quase pronto. Mas, nesse tempo, descobri que o que há é, realmente, a necessidade de escrever, o contato com as palavras, este mundo ao qual adentramos querendo entendê-lo, descobrindo que o buraco é cada vez mais embaixo. (Perdoem-me por eu estar meio clichê. Eu bem disse que ficamos sentimentais.) O poeta ainda está por vir, se vir.
E, humildemente, devo reconhecer que eu tinha iniciado a faculdade de Letras para ser poeta. Na dificuldade deste, larguei aquela. Acho que eu tive medo de não ser poeta, eu que já me achava tão poeta. Há e sempre haverá a insegurança de não sê-lo, mas é um risco que, para mim, agora vale a pena. Mais uma frase tola: eu estou fazendo o que gosto, é de mim fazer isso, vale a pena arriscar; antes assim do que seguir por um caminho mais falso, artificial, carregando a perda de um dia eu poder ter sido o que queria . Também não conseguiria ser diferente.
Espero que, de agora em diante, já tendo dado as caras e pedido desculpas pelo sumiço com estes textos sinceros, eu retome bem o Perambulagens e também algumas coisas que deixei no caminho e que não me deixaram.
*
Um bom ano novo para vocês. Muita literatura, muito uísque. Bons amigos, bons amores.
Arrumações
Postado em
December 28, 2007
Categoria: Coisas | 6 comentários
Neste fim de ano me dei dois presentes: um notebook, que foi possível comprar graças ao meu novo emprego; e a minha entrega às coisas que realmente me satisfazem, o que inicialmente tenho conseguido graças, em partes, ao meu emprego e ao notebook (já que estou me organizando desde cedo, o que também será difícil de se manter, reconheço); a outra parte é o expurgamento do que me estava cansando. Porque, antes de começar o trabalho, eu estava atirando a todos os lados, em busca de uma manutenção financeira, que era e é não só importante quanto necessária. E, chegando ao trabalho, mantive todos os projetos e até criei outros. Pudera! eu estava inseguro e desconfiado quanto ao futuro. Passei tempos de medo, de nervosismo, de stress etc. De verdade.
Hoje, já que só ontem retornei da viagem a Itajubá, tenho me desfeito comigo mesmo de compromissos de diversas ordens, e que poucos de vocês sabiam. Desde um blog em que eu falava de tecnologia até um site para pára-quedistas que clicavam em meu AdSense. O problema disso tudo é que eu não estava tendo tempo para ler e escrever das coisas que mais importam para mim – ainda que tirasse o rendimento do uísque: o dinheiro recebido era gasto no alívio. Eu ficava preso nessas coisas chatas, sem poder de recusá-las.
Tem sido agora uma rotina de lavar a alma: estou me despedindo de alguns sites, cancelando contas, enviando alguns e-mails e excluindo a assinatura de dezenas ou centenas de feeds no Google Reader. Mantenho, agora, apenas os que realmente me interessam. Nas próximas horas, pretendo deixar limpinha minha caixa de entrada do Gmail. Depois, responder às pessoas com quem eu estou em falta. Não são poucas, não. Mas se acalmem, que eu chego lá.
E também tenho escrito e planejado textos para o Perambulagens, que terá toda minha atenção possível até que eu volte à faculdade de Letras, o que me parece, por ora, decidido.
Ah! este é apenas um post para eu demonstrar minha tranqüilidade e esperança e registrar para mim mesmo que sinto ter voltado ao que me satisfaz. E para comunicar aos meus amigos que voltem a contar comigo para discutir de nossas coisas.
Uma coisa sobre o natal
Postado em
December 26, 2007
Categoria: Cotidiano | 6 comentários
Olá a todos. Estou em Itajubá, Sul de Minas, nuns dias de férias do trabalho e de S. Paulo, recuperando-me para que no dia 2 eu já esteja preparado para mais uns meses árduos, agora de trabalhador e estudante. Fazia muito tempo que eu não postava, e desde que estava aqui, entre as montanhas, vinha pensando em uns posts e em literatura. Mas como aqui há computador apenas na lanhouse, tudo será adiado. E mesmo que hoje cedo eu já tenha postado apressadamente, gostaria de responder a este post do Ed, e não necessariamente no sentido de retrucar. É que ele lembrou uma coisa que eu queria dizer.
A maior reclamação das pessoas quanto ao natal é que há muita hipocrisia ao se desejar felicidade e celebrar em conjunto com muitas pessoas às quais, na verdade, não se dá a mínima. Mas esta é a melhor parte do natal, a de simular, colocar-se num contexto ao qual você não está acostumado. É bom porque, se por um lado fazemos votos insinceros, por outro também reconhecemos algumas afinidades entre parentes. Há aqueles parentes que você sempre amará e alguns que são muito agradáveis de se passar junto nessas datas, e ao mesmo tempo há uns absolutamente desprezíveis nesta ocasião — ainda que outras vezes eles sejam amáveis.
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