Do instinto à liberdade, da moral à lei

Postado em March 16, 2008
Categoria: Filosofia, História, Ética | 6 comentários

Esta entrada vem tarde, mas pretende, ainda assim, fazer eco a duas questões que vi levantadas em blogs amigos e, embora não tenham, na origem, nenhuma relação uma com a outra, podem e devem ser aproximadas. No seu A Terceira Margem do Sena, meu quase-vizinho Lelec mencionou as mais recentes pesquisas da neurologia (ele mesmo é neurologista), da etnologia comparada e, indiretamente, da etologia, que parecem demonstrar a existência de princípios universais de Moral (entendida no sentido filosófico, não no consuetudinário). É verdade que foi uma menção rápida, dentro de uma caixa de comentários, mas o exemplo que me chamou a atenção veio mais provavelmente dos estudos etológicos, que acusam, pelo comportamento de grupos animais, a existência de uma função própria para, por exemplo, o altruísmo. Mais ou menos na mesma época, li um texto de Mythus, do Kaleidoscópio, de onde, resumindo, pode-se derivar uma pergunta interessantíssima. Tomarei a liberdade de fazê-lo, se Mythus me der licença: Deve a lei caminhar no mesmo sentido das oscilações da sociedade, da opinião pública, dos costumes?

Três são as coisas que não quero fazer aqui, porque está longe de ser o caso e nem sou eu a pessoa mais qualificada para isso:

  1. Refutar as conclusões das pesquisas que Lelec cita em seu blog,
  2. O oposto, ou seja, comprovar os argumentos avançados por Lelec,
  3. Responder à questão derivada do blog de Mythus.

Mas, antes que você interrompa a leitura, tendo concluído que este texto é desprovido da menor utilidade, já que não responde, nem reitera, nem refuta, já aviso que meu interesse é mostrar o quão próximas, diria mesmo inseparáveis, estão, na verdade, essas questões que parecem irreconciliavelmente distantes, como o funcionamento do cérebro, o comportamento dos macacos e o fundamento das legislações. Pois é justamente para isso que serve, em nossos dias, o questionamento filosófico: desvelar a base comum das coisas que existem, mesmo num tempo em que a realidade parece estilhaçada, em que as áreas do conhecimento humano não dialogam e se fazem a cada dia mais herméticas.

Já ao primeiro olhar se pode ver que o ponto comum entre os textos de Lelec e Mythus é a tal da Moral. Mas atenção, esse conceito deve ser tratado com muita parcimônia. Por seu desenvolvimento histórico, o significado da palavra correspondo hoje a algo como “obedecer ao padre” ou coisa assim, e sua mera menção causa ojeriza nos libertários. Coisa parecida aconteceu com seu quase sinônimo: “ética”, que passou a ter um sentido de conduta profissional ou esportiva: “a ética na medicina”, “a ética nos negócios”, “a ética no futebol”. É preciso estabelecer desde já que usaremos “moral” e “ética” (mais a primeira do que a segunda, provavelmente) em seu sentido mais antigo, qual seja, aquele que podemos traduzir (roubando as palavras de Kant) como “razão prática”. Moral (ou Ética) é o campo de estudo daquilo que fundamenta a ação humana no centro de um mundo que lhe é, ou lhe parece, exterior.

Examinemos, em primeiro lugar, as proposições de Lelec. Ele menciona a descoberta de que grupos de animais ditos inferiores podem se comportar de maneira altruísta, ou seja, favorecer outros indivíduos quando o mais sensato, de um ponto de vista estritamente egoísta, teria sido prejudicar os demais, para não dizer o grupo inteiro. Evidentemente, como essas pesquisas demonstram, não foi religião alguma que ensinou essa atitude ao bicho em questão. Tampouco foram códigos de conduta ou sumas legais. Necessariamente, o altruísmo e a noção de grupo fazem parte da estrutura cerebral do animal e provavelmente da espécie. O altruísmo, em outras palavras, aparece, graças a esses estudos, como instintivo, natural e universal. (Não sei a que animal Lelec se refere especificamente, mas já vi estudos que fazem essa afirmação a propósito de macacos, então vou me referir, daqui por diante, a eles.)

Instinto e Moral

Surge aí um problema: se um comportamento é instintivo, podemos dizer com justiça que ele é moral? Agir de acordo com uma determinação biológica é uma postura que se possa chamar ética? Desconheço alguém que afirme que sim, simplesmente pelo fato de que a própria palavra perde sentido: todo ato passa a ser necessário e previsível, uma vez conhecidas suas leis mecânicas. Assim, por mais triste que seja assistir ao vídeo de um leão que, enquanto a leoa berra em desespero, massacra seus filhotes, não se pode, de forma alguma, condenar a atitude como sendo imoral. Tampouco faz sentido exigir de formigas operárias, sempre tão exploradas, que se rebelem contra a opressão da Rainha, bem alimentada e sempre descansando, à espera do momento de se reproduzir. E assim por diante. Alguns macacos têm atitudes altruístas, por certo. Mas esses mesmos animais cometem crueldades, chistes e coisas que poderiam ser qualificadas como crimes hediondos. Mas seria tão insensato meter no xadrez um macaco assassino quanto fazer o mesmo com um cão que morda seu dono. Aliás, um tal cão, normalmente, é “sacrificado”, ou seja, assassinado pura e simplesmente. Ninguém considera que haja questões morais na mordida do cão. Diz-se que ele enlouqueceu ou é um mau cão; jamais que ele quebrou algum código. Nunca vi o julgamento de um cachorro. É mais fácil ver no banco dos réus o proprietário de um animal perigoso que ande sem coleira.

Isso não significa que o altruísmo não possa estar na cabeça de um macaco. Significa, simplesmente, que atribuir a esse caráter um epíteto de moralidade parece além do nosso direito. Soa artificial. Eu diria mesmo que se trata de antropomorfismo: é moral, ou cremos que seja, o altruísmo de um ser humano. Ora, eu observo altruísmo no animal. Logo, o altruísmo do animal deve ser moral. Mas isso nos obrigaria a crer que um animal egoísta é imoral, e condená-lo. O mesmo vale para todas as atitudes de animais que lembrem práticas humanas à qual nós adiramos, com justiça ou por convenção, uma conceituação moral.

Parece, com isso, que chegamos a uma primeira determinação: a moral é um atributo (no sentido de predicado) exclusivamente humano. A princípio, essa afirmação parece tão irresponsável quanto a outra. Que privilégio tem o homem sobre os outros animais, que faz dele um ser moral, o único de toda a criação? Seria apenas sua inteligência superior, seu raciocínio abstrato, a civilização que construiu? A pergunta é difícil, mas fundamental para que possamos delimitar bem o campo da moral e, assim, obter sucesso no nosso esforço de aproximar Lelec e Mythus, se possível com as primeiras noções de uma resposta para as questões levantadas.

De onde vem a noção moral no homem é uma pergunta que já foi feita inúmeras vezes, com respostas muito diferentes e, no entanto, bastante próximas. A primeira abordagem que podemos mencionar é a que a maioria de nós recebe na mais tenra infância, depois supera à medida em que vai crescendo. Exatamente: a religiosa. Para os católicos, por exemplo, Deus, ao criar o homem, dotou-o de uma alma imortal e do livre arbítrio, depois lhe impôs uma série de mandamentos aos quais ele deveria, mas pode ou não obedecer (porque tem livre arbítrio). A obediência chama-se piedade (no sentido de devoção); a desobediência, pecado. Ora, perguntará Santo Agostinho, para dar um exemplo, e os anjos? Cabe falar em moral no caso deles? Resposta do próprio bispo de Hipona: não. Os anjos conhecem o futuro, eles não têm livre arbítrio. Não podem pecar, nem agir corretamente. Só o homem.

Algo muito parecido diziam os gregos, menos preocupados com a questão religiosa: o homem é um ser moral da mesma forma como ele é um animal político. Não é nem um bicho, plenamente determinado e completo em sua existência limitada, nem um deus, ser de intelecto superior, para o qual o erro não existe. O homem é incompleto, precisa tomar decisões que ultrapassam sua determinação (instintiva, diríamos hoje em dia), precisa se organizar para produzir sua própria sobrevivência, é obrigado a aprender a conviver em sociedade, não de maneira natural e instintiva, como as formigas e as abelhas, mas graças ao próprio esforço. O homem é meio carne, meio intelecto, e precisa se organizar entre os dois. Daí a preocupação de Aristóteles, por exemplo, com a justa medida. Daí a famosa idéia da falta trágica, em que o herói tenta ser mais divino (ou seja, mais intelecto) do que lhe é dado ser, e acaba destruído pela própria ambição.

Falando em Aristóteles, um indicador excelente do que podemos considerar como a origem da moral está em seu conceito de bestialidade. Besta, é necessário dizer, designa em grego o animal selvagem, ao passo que a palavra que corresponde melhor a “animal” (Zôon) inclui praticamente tudo que vive, até o homem e os deuses. Pois bem, para Aristóteles, um animal jamais pode agir “bestialmente”. Só o homem. A hiena que come seus filhotes não é bestial. Ela só segue sua natureza. Já uma Medéia da vida, que assassina seus rebentos, é bestial. A bestialidade corresponde ao momento em que a humanidade se apaga da cabeça de um ser humano, e ele age de uma forma tão hedionda como nenhum animal jamais faria.

Liberdade humana

Estamos chegando próximos de nossa segunda possível determinação: a fonte da moral no ser humano é o fato de ele ser intrinsecamente livre. Desenvolveremos melhor esse ponto mais adiante, porque agora é necessário enfiar a lâmina um pouco mais e perguntar: mas o homem é livre de fato? Muita gente dirá que não. Os calvinistas, por exemplo, para quem o destino de todo homem está traçado desde seu nascimento pela Graça divina. O mesmo vale para Spinoza, filósofo de origem judaica e influência protestante, que considera que nem mesmo Deus é livre, porque, grosso modo, sua perfeição o obriga a agir perfeitamente. Mais recentemente, temos deterministas sociais (entre os quais uma certa vertente do marxismo), econômicos (sobretudo entre os ultra-liberais) e psicológicos para dizer que a história já está escrita, a do mundo como a de cada um. Se isso for verdade, temos que:

  1. A moral não tem sentido, porque não podemos decidir como vamos agir, somos determinados pela história, por Deus, por nossa estrutura mental, pelo cálculo da utilidade.
  2. Que a moral, as leis ou qualquer outra coisa exista ou deixe de existir, pouco importa, porque “tudo já era para ser como é”: não estava definido desde o princípio? Não seria necessariamente assim? A própria existência de códigos morais “era para ser”. Estava escrito.
  3. Toda vez que decido alguma coisa, estou, na verdade, apenas realizando um plano pré-fixado. Não posso ser censurado ou louvado por isso.

É evidente que esse tipo de pensamento envolve uma série de problemas. O primeiro deles foi apontado por Leibniz, para quem, de fato, toda a história já está escrita por Deus, que conhece o passado, o presente e o futuro perfeitamente. Mas nós, homens, temos um conhecimento muito, muito parco dessas três instâncias do tempo. Ao agir, portanto, somos livres, mesmo que já seja conhecido pelo Criador o que faremos com essa liberdade. Saída ainda melhor encontrou Rousseau, para quem, se posso dizer que não sou livre, é porque tenho a liberdade de dizê-lo: portanto, de alguma forma, pelo menos, eu sou necessariamente livre. Tudo isso pode ser traduzido da seguinte maneira, que designaremos como nossa terceira possível determinação: a moral está determinada no ser humano pelo fato de que ele é livre, no sentido de ter a liberdade de agir de duas ou até mais maneiras opostas, de acordo com sua força de vontade. Assim, num exemplo idiota, se um sujeito chega em casa e encontra a mulher na cama com outro homem, ele pode tanto matar os dois e ir a julgamento quanto, digamos, soltar uma piada infame e ir direto para o escritório de seu advogado, pedir um divórcio milionário e se mudar para o Taiti.

Agora que já entendemos o que queremos dizer por liberdade, temos de voltar atrás e desenvolver o que queremos dizer quando afirmamos que a moral é fundada nessa liberdade. Já ficou claro por que o altruísmo do macaco, como levantado por Lelec, não se encaixa no conceito de Moral. Falta agora compreender com que direito sustentamos que o altruísmo humano pode, se é que pode, ser moral, para enfrentar a questão de Mythus (recapitulando: o direito deve seguir as oscilações da sociedade?). Adianto desde já: não conseguiremos uma resposta definitiva. Triste, um pouco desanimador, quem sabe, mas significa que ainda temos motivos para pensar e encontrar soluções para os problemas que não nos dão sossego. Ainda há algum lugar para a reflexão no mundo, sim senhor. Então vamos ao problema.

Individual, social, universal

Se o homem é livre, o que fundamenta que algo seja correto ou errado? Ou seja, o que fundamenta um comportamento moral, louvável ou censurável? A determinação plena da moralidade é algo que se encontra dentro de cada ser humano? Ou varia de acordo com a história e as sociedades? Ou, finalmente, existe algum princípio moral que seja universal? É possível encontrar quem defenda cada uma dessas posições, mas são todas elas perigosas, cada qual à sua maneira. A idéia de uma moral individual é provavelmente a mais arriscada, embora ande em voga. Não confundir, por favor, com a noção de liberdade individual, segundo a qual “o direito de um termina onde começa o do outro”, que é uma idéia muito bonitinha, mas pouco aproveitável para aplicações na vida real. A moral individual implicaria a idéia de que “eu acho certo, eu faço e ninguém tem nada com isso”; e tudo é permitido, conforme aconteceria, previu Dostoiévski com voz de profundo pesar, quando fosse constatada a inexistência de Deus. Os mais cínicos e menos lidos costumam justificar a idéia de uma moral individual com apoio em Nietzsche. Mas acontece que o bigodudo jamais afirmou a existência dessa moral, apenas postulou o Übermensch, que não existe, e que seria capaz de se dar sua própria moral. Nada parecido com o famoso “liberou geral”.

A moral das sociedades ou civilizações faz mais sentido: é certo que cada povo, em seu tempo e de acordo com seu desenvolvimento histórico, produz um corpo de leis que corresponda a suas necessidades econômicas, suas crenças religiosas, seus debates internos. Mas isso não basta como fundamento da moral. Os legisladores não podem, afinal, aprovar uma lei e lhe atribuir, ao mesmo tempo, uma limitação temporal: “É proibido tirar a vida a outrem, até o momento em que comecemos a pensar como espartanos; aí, será permitido.” Isso seria absurdo. Não seria possível obrigar ninguém a cumprir as leis da sociedade, porque todo mundo poderia se defender dizendo que está à frente do próprio tempo, ou que prefere as coisas como eram antes. E, sobretudo, as próprias leis tentariam se adiantar aos eventos. Mas isso não funcionaria, porque as leis são por definição conservadoras. São um certo princípio de estabilidade, de tal forma que, quando mudarem, devem fazê-lo depois que a estrutura de opiniões e costumes da sociedade já esteja mudada há tempos, e já se encontre praticamente consolidada em sua nova posição.

Resta o último tópico: a universalidade da moral, bola já levantada pelas pesquisas citadas por Lelec. Por sinal, já adianto que as neurológicas ainda vão atrair nosso interesse, já plenamente esgotado no que toca às etológicas. A primeira coisa a dizer é que o conceito parece ser necessário, se qualquer coisa deve ser fundamentada sobre a moral. A não ser, claro, no hipotético mundo do Übermensch de Nietzsche. A segunda coisa a dizer é que exemplos concretos são difíceis de encontrar. Roubar, matar, mentir, tudo isso já teve seus momentos de legalidade. A última tentativa de encontrar uma única mísera lei universal, comum a todas as sociedades de todos os tempos, apontou para o incesto. Acreditou-se que, como efeito de uma motivação genética inconsciente, todas as tribos da história teriam proibido o casamento entre irmãos. Pois bem, mesmo isso falhou: o incesto já foi até obrigatório. No Egito Antigo, os faraós não podiam contrair matrimônio com ninguém que não fosse a própria irmã. Nem mesmo as milhares (literalmente) de meio-irmãs que eles tinham.

Mas se nossa aparelhagem moral não é inata, como justificar a criação de leis justas, que as populações se sintam obrigadas a cumprir sem que alguém lhes aponte uma baioneta para os miolos, como propõe Max Weber? À medida em que o laicismo foi se estabelecendo no pensamento e no Direito, essa questão se tornava mais forte. Antes, afinal, o problema encontrava sua resposta imediatamente: eram as leis de Deus, fosse o Deus católico, o protestante, o ortodoxo, o judeu, o islâmico ou qualquer outra divindade concorrente. E são duas as grandes mentes que tentaram encontrar uma resposta, ainda no século XVIII, ou seja, em plena era das Luzes. Foram elas David Hume e Immanuel Kant. Embora nenhum dos dois tenha dado respostas plenamente satisfatórias, ambos ajudam enormemente a pensar a questão em termos bem fundamentados.

Os sentimentos morais

Para Hume, a razão desempenha um papel minúsculo no jogo da moral. Aquilo a que damos o nome de Moral é um sentimento de concordância ou repulsa em relação a algum ato. Mas não é apenas o sentimento: é também um pensamento, porque temos igualmente opiniões morais, e opiniões se referem a idéias, enquanto sentimentos se referem a impressões que recebemos do mundo exterior. Mas o sentimento, ainda assim, é largamente preponderante: não existe um conceito racional que faça a distinção do que seja ou deixe de ser moral, porque, para ele, isso implicaria uma moral aplicável a qualquer objeto, mesmo inanimado.

Até aqui, podemos ter a impressão de que o filósofo escocês propõe um forte relativismo moral, segundo o qual o sentimento de cada um determinaria o que é louvável ou criticável. Mas não é esse o ponto a que ele quer chegar. É certo, para Hume, que exista uma convergência natural dos sentimentos morais entre os homens, porque a mente humana é naturalmente propensa a sentimentos dessa ordem. Mas aqui está a sutileza: mesmo que haja diferenças fundamentais entre as considerações das pessoas sobre a moralidade dos atos, todas têm noção do que seja essa moralidade, enquanto princípio. Por mais que, para casos e leis específicos, não haja nem sequer esboço de convergência universal de avaliações, o princípio moral é, sim, universal no ser humano. Agora, voltemos às pesquisas neurológicas citadas por Lelec: elas parecem comprovar o que disse Hume. Elas indicam a existência de uma função cerebral humana de avaliação moral. Em outras palavras, a Moral é inerente ao homem.

Mas devagar com o andor: só o que conseguimos encontrar, até agora, é um indício muito forte da Moral como um fato; seu conteúdo continua absolutamente indeterminado, e desconfio que continuará até o fim deste texto. Hume acredita que existam princípios universais estritos para a ação Moral, mas confessa sem pudores sua própria incapacidade de discriminá-los. Estou seguro de que o mesmo se dá com as pesquisas neurológicas. A explicação para o impasse (não sua solução) é fornecida, provavelmente, pela fenomenologia do século XX: o esforço de avaliação moral do cérebro faz parte de seu esforço geral para dar sentido ao mundo. Mas a apreensão do mundo é cambiante, o sentido idem, a Moral, mais ainda. Mas isso foge ao escopo deste texto, é hora de tocar em frente.

O imperativo categórico

Kant, talvez o maior pensador desde Aristóteles, decidiu enfrentar de vez a questão da Moral universal. Ao demonstrar a impossibilidade de compreender a natureza da Deus, do Universo e da Mente, Kant estraçalha a tradição metafísica. Mas não é bem isso que ele procura: seu desejo é apenas refundá-la, não sobre uma lógica prepotente, que se crê perfeita a ponto de definir Deus, mas sobre a lógica da Moral, da ação humana, da prática do nosso entendimento. O indivíduo, aponta Kant, está em constante contato com o mundo; recebe-o sob a forma de Espaço (formas, digamos) e Tempo (mudanças, movimentos), e lhe dá sentido encaixando-o em categorias, que são espécies de “moldes de significado”. Esse processo recebeu o nome de esquematismo, o Tempo e o Espaço são as condições de possibilidade do entendimento e o mundo que finalmente percebemos é dito fenomenal, porque resultado desse processo. Nossa compreensão não tem acesso a nada que ultrapasse as noções de Tempo e Espaço, daí nossa impossibilidade de definir Deus, a Mente ou o Universo. Muito bem, mas onde está a moral nessa história?

Ora, se a Metafísica, que ambicionava conhecer Deus e o Universo, não pode estruturar o mundo, talvez a ação humana o possa, uma vez que o mundo, como o conhecemos, é resultado de um processo psíquico humano. A humanidade, sendo livre e incapaz de conhecer a fundo as determinações de Deus, precisa desenvolver por si própria sua estrutura moral, de tal maneira que, sem abrir mão de sua liberdade, ela se obrigue a agir de acordo com essa moralidade. E como o pensador pretende que seja assim? Pois bem, no entender de Kant, cada indivíduo estabelece inconscientemente, para sua própria ação, uma série de máximas. São máximas todas aquelas pequenas e vagas certezas que temos: “quero subir na vida”, “não concordo com o aborto”, “se alguém me sacanear, encho de porrada” e por aí vai. Para que essas máximas possam se alçar à condição de preceitos morais, elas precisam poder constituir-se em imperativo categórico, um conceito complexo, normalmente descrito da seguinte forma: se, todos agindo de acordo com uma determinada máxima, o mundo funcionar de maneira mais organizada, essa máxima pode alçar-se ao imperativo categórico.

Kant tem consciência de que poucas pessoas estão preocupadas em obter um atestado de imperativo categórico para suas máximas; afinal de contas, em geral nem estamos cientes da existência dessas máximas. É por isso que Kant se vê obrigado a dois postulados que me parecem problemáticos, quais sejam, a imortalidade da alma e a existência de Deus. Para que a humanidade possa chegar ao ponto de buscar o imperativo categórico, ela precisa acreditar que a alma humana é imortal, e que há um Deus, mesmo que esse Deus seja indescritível e incompreensível. Ela precisa acreditar nisso como acredita no espaço abstrato e no princípio de identidade. A explicação é muito simples: Kant não vê como alguém possa obrigar sua própria liberdade a agir moralmente se a existência termina com a morte e não há perspectiva de conseqüências na eternidade. De certa forma, é uma tradução da idéia de que a Moral é fruto de pressões externas, e não é à toa que muitos comentaristas consideram a teoria moral de Kant como uma secularização da Moral luterana.

O Direito

No ponto a que chegamos, já demos de cara com uma série de problemas: a noção de Moral é intrínseca à natureza humana, existe graças à sua liberdade, serve para impor limites a essa liberdade, precisa ter um mínimo de universalidade para poder se considerar justa, mas surge dentro da subjetividade (ou do cérebro, dirão os materialistas) dos indivíduos, de forma que a convergência de valores passa a impressão de provir de algum consenso social, histórico ou cultural que é útil, por certo, mas insuficiente para justificar a imposição de uma lei. Ainda assim, alguém poderia perguntar: o que tem a ver com isso o Direito? É perfeitamente possível pensar a criação de leis de forma puramente utilitária, não é? Por exemplo: tirar a vida a outrem é proscrito pela legislação porque a permissão de matar tornaria impossível a vida em sociedade. (Uma idéia que se aproxima, de certa forma, do imperativo categórico de Kant.)

Várias respostas muito simples são possíveis. Em primeiro lugar, a utilidade das leis, tendo por fim o bom funcionamento da sociedade como um todo, só parece uma boa idéia quando consideramos civilizações razoavelmente holísticas, ou seja, em que a preocupação principal seja seu funcionamento como um todo, como um organismo (aliás, uma metáfora que teve seu momento). Se imaginarmos uma determinada civilização que compreenda a si mesma como a somatória de indivíduos autônomos, no limite não podemos mais argumentar pelo funcionamento do conjunto como fundamento lógico da legislação. Mas, afinal, existem sociedades que se consideram simples agregados de átomos humanos? Sim, existem: é uma tendência contemporânea a cada dia mais forte. Numa leitura terrivelmente distorcida do que um dia foi o liberalismo (tanto o econômico quanto o político, mas isso é matéria para outro texto), existe uma forte corrente que tenta ler até mesmo atitudes como o altruísmo sob a ótica do interesse pessoal, ou seja, do egoísmo. Certamente o leitor já ouviu alguém argumentar que fazer o bem ao próximo é apenas mais uma maneira de fazer bem a si mesmo, seja pela satisfação de ser uma boa alma, seja para afastar de si qualquer coisa que se assemelhe à tristeza ou à miséria. No limite, semelhante argumento pode conduzir à conclusão de que qualquer lei é injusta, por obrigar alguém a agir de uma forma que vá contra seu interesse: é a lei da selva, meu amigo.

Também vale a pena mencionar rapidamente a idéia que o principal da microeconomia tem das legislações. Para muita gente dessa turma, a lei existe para estabelecer (quase a esmo, da maneira como eles colocam) de que lado de uma disputa econômica está o direito inicial, de maneira que os agentes econômicos tenham bases estabelecidas para negociar suas utilidades e desutilidades. Com certeza, trata-se de uma idéia charmosa para nossos dias mercantis, mas ainda não consegui enxergar o ponto de apoio que os legisladores terão para tomar a decisão quanto aos direitos iniciais. Talvez tenham de tirar no cara-e-coroa.

Bom senso, enfim

Está na hora de encerrar este texto. Parece que chegamos a um beco sem saída. Precisamos responder até que ponto o Direito deve seguir os fluxos da opinião geral, e não conseguimos. Já temos uma noção de que a lei não deve ser alterada a cada mudança de vento das noções morais, sob pena de perder a própria legitimidade. Mas também não nos consideramos no direito de exigir que ela seja eterna, imutável e pétrea como o comunismo na Constituição cubana. Onde está a resposta?

Minha inclinação está em responder que ela não está em lugar algum. Mas quem sou eu para afirmar algo tão drástico? Prefiro descer da exigência filosófica de universalidade e voltar à minha posição preferida, porque mais confortável: o humanismo puro e simples. Ora, tenho bem o direito de fazer isso: não nos esqueçamos de que o ser humano é livre, pode escolher como agirá, e essa é a própria condição de possibilidade da Moral… E é com essa postura que examinaremos os exemplos citados por Mythus em seu post, que são a tortura e a união estável (para facilitar o trabalho, vamos tomar o exemplo da ‘união civil de homossexuais’, pedindo por antecipação perdão pela infidelidade da citação.)

  1. A lei deve seguir a opinião de metade dos brasileiros e legalizar a tortura policial?
  2. A lei deve seguir a opinião dos brasileiros mais conservadores e barrar a união civil de homossexuais?

Como humanistas que leram as sete páginas deste post, a melhor resposta que podemos dar é não para ambas as perguntas. Por que sustentamos isso, nós que não conseguimos encontrar o fundamento universal e definitivo da Moral e da lei? Afinal, em ambos os casos, vamos contra a opinião da sociedade; no entanto, se daqui a dez anos o conservadorismo no Brasil for menor, nossa posição passa a ser a mesma da maioria. E então? Como resolver esta questão?

Para isso, finalmente, tenho uma resposta. O que sustenta a idéia de que a tortura é inaceitável é um princípio laico, humanista e prudente, segundo o qual nenhum homem tem direito sobre o corpo de outro, sobretudo alguém que nem sequer passou por um julgamento justo do Estado. Defender a tortura é, indiretamente, defender a arbitrariedade. Por isso, o humanista, aquele que tem ódio pela arbitrariedade entre os homens, é contra a tortura, mesmo se, fundamentalmente, historicamente, o mundo é arbitrário e injusto, e a tortura seja algo quase “natural”. Pois bem, o humanismo vai freqüentemente contra a Natureza. E com muito orgulho.

Já a proibição da união de homossexuais não tem qualquer base humanista e não é, ao contrário do que pensa muita gente, natural. Existe homossexualismo na Natureza; na História, então, muito mais. A Antigüidade louvava o amor entre dois homens (em geral, um amor que consideraríamos pedófilo, entre um homem sábio e um adolescente aprendiz) e Platão, não me lembro mais em qual diálogo, chega a fazer uma demonstração lógica da razão pela qual aquele que ama homens é superior a quem ama mulheres (antes que me perguntem, discordo veementemente, mas não é a questão aqui). A ojeriza ao relacionamento homossexual tem suas raízes nos costumes e na religião e, embora não chegue a ser propriamente arbitrária, está mais próxima disso do que a aceitação. Nesse sentido, podemos dizer que a proibição que vige até hoje é uma “concessão” da lei ao costume, e a mudança no costume pode ser entendida como um “alívio” para a lei (as aspas são importantes porque o discurso é muito pouco rigoroso).

O assunto, evidentemente, não está esgotado. Pelo menos, conquistamos algo de muito valioso. Sabemos, agora, que não faz sentido esperar caírem dos céus, nem das ciências, nem da filosofia, nem de lugar nenhum, o definitivo fundamento para a melhor ação dos homens. O eternamente bom e louvável não está nem no nosso cérebro, nem no mundo das idéias inteligíveis, nem do lado direito do Criador. Nossa vida se desenrola no meio de um mundo muito instável e incerto, mas é o mundo em que vivemos; sobretudo, nenhum de nós é eterno: de que adianta, então, querer se guiar pelo infinito? O grande desafio da humanidade, hoje, é conseguir que cada um aceite sua própria finitude e, ao mesmo tempo, entregue uma parte de si para a continuidade do todo, para a transcendência da raça humana como um bloco. Enfim, o desafio é incutir na cabeça de cada um, ao mesmo tempo, o amor-próprio individual e a certeza de pertencer a uma unidade que o ultrapassa.

Quanto às leis e à Moral, nosso desejo deve ser o estabelecimento de princípios sólidos, sim, estáveis, sim, mas não a ponto de engessar o caminhar de nossa própria história e o desenvolvimento de nossos descendentes. É difícil, é vago, mas é o que nos cabe. De todos os princípios que o homem pode se dar, o mais difícil de definir ainda é o mais sábio: o bom senso.

Sobre símbolos e eras

Postado em February 27, 2008
Categoria: Filosofia, História | 6 comentários

Este texto, confesso, é resultado de uma recaída metafísica. Talvez seja culpa do inverno que vai terminando, levando consigo a escuridão carregada de símbolos e significados. Tão contraditórias entre si, essas imagens de penumbra, que o espírito inquieto se flagra envolvido em perguntas e mais perguntas. No meu caso, começo a me questionar sobre o mundo, nosso mundo. Nós, como humanos, não apenas vivemos no mundo, mas o construímos, o projetamos, antes até de viver. Gostaria de poder saber como se dá isso. Por enquanto, tenho para mim que cada mundo humano se tece ao redor de um punhado de certezas transcendentais, a exemplo do tempo e do espaço. Essas certezas, em geral vagas e quebradiças, precisam se concretizar diante de nossos olhos, em grandes símbolos encarnados. Símbolos assim emudecem os espíritos em suas perambulações. E mais: reforçam na grande alma coletiva os valores de suas certezas.

Essas convicções podem tomar uma infinidade de formas. Religiões, ideologias, línguas, configurações morais. Por um lado, elas servem ao propósito de limitar nosso campo de ação. Sem dúvida. É o preço a pagar para que possamos viver juntos, pelo menos por um tempo. A convicção indica, da melhor maneira que pode, uma certa direção ao olhar de cada um. Podemos obedecer com maior ou menor rigor, podemos nos rebelar, pouco importa. Ali, nesse direcionamento tácito, está o que o grosso de uma pluralidade humana qualquer considera ótimo, normal ou absurdo em algum momento e território. É isso que lhe dá uma face. Quanto aos símbolos, podem entrar nessa categoria todas as formas que o ser humano encontra para se espelhar na realidade, isto é, imprimir os contornos de seu rosto ao entorno. Como os cães, que, ao urinar nos postes, demarcam o mundo que é deles. Os humanos não empregam a amônia, felizmente; mas faz coisa muito parecida, usando o corte das roupas, o ritmo das músicas, as idéias vulgares com que inteligências tíbias constroem seus discursos inflamados. É a dimensão estética que permeia cada fibra de nossa existência, o campo geral de nosso diálogo com o exterior. Assim, ao contemplar o leque de símbolos de uma gente, temos dela uma estranha compreensão, absolutamente silenciosa. Qualquer tradução em palavras lhe compromete o valor.

De todos os símbolos, o mais vistoso e eloqüente é, com certeza, o monumento. Primeiro, porque ele já é feito com a finalidade, nem sempre consciente, é claro, de simbolizar alguma feição da existência plural. Um vestido bem desenhado se costura para o uso de uma mulher; mesmo a tela de um grande mestre é objeto de transações no mercado, e enfeitará a sala de estar de algum homem poderoso. Já o monumento é construído com o fito único de ser monumental, estar ali, diante dos olhos das pessoas, cuspindo sobre elas um fogo cerrado de símbolos, ao mesmo tempo históricos, políticos e estéticos. Em segundo lugar, o monumento não tem escapatória. Ele está ali e ponto. Solene, quase sempre de uma solidez opressiva e, não raro, vertical até esfumaçar as retinas. Os monumentos de outros tempos e mundos se misturam e confundem pela cidade, como se o passado fosse um só, todo feito de obeliscos. Os de hoje, nós os elevamos com os olhos voltados para uma grandeza que o futuro, estamos convictos, saberá reconhecer. Nossos monumentos têm um rosto todo próprio, mas, de fato, sua função jamais é inteiramente diferente.

As grandes cidades do mundo estão coalhadas desses símbolos de pedra, terra e metal. A Europa, em particular, não sabe o que fazer com tanto monumento. Uma pilha de resquícios esfacelados dos impérios já caídos. Santuários de que se apropriaram os turistas, esses bárbaros modernos entupidos de dinheiro. Testemunhas de uma história que quase ninguém sabe contar.

Dentre essas fabulosas capitais, Paris é a que mais cultiva sua vocação para o monumental. É a cidade que encontra sua identidade justamente nas linhas de avenidas que conectam um marco a outro, como se tentassem desenhar uma estrela de incontáveis lados. Tudo pode cair aos pedaços na França; só os monumentos parisienses precisam ficar de pé. Eis a diretriz gaulesa.

Todos sabem qual é o monumento principal desta cidade; sete mil toneladas de ferro, em vigas amarradas umas às outras para escalar 324 metros de céu. Quase um milagre da engenharia de sua época, que, espalhado pela área enorme que ocupa, oprime o solo não mais do que um homem sentado. A torre planejada por Gustave Eiffel domina toda a cidade. Faz-se enxergar de qualquer canto, até mesmo alguns subúrbios distantes. A despeito da altura e do peso, sua forma esguia transmite uma leveza serena. Ocupa um volume considerável roubado ao ar, mas compõe-se majoritariamente de vazio. Puro nada, como o dos átomos, o dos bancos, o das multidões.

Eis aí uma das obras maiores e mais simbólicas de uma época encerrada sem notarmos, absortos que estávamos nos traumas que esse mundo se ofereceu. Um capitalismo escaldante, que o Ocidente superou ou preferiu esquecer. Uma força possante, irresistível. Arrasava tudo de vetusto e mesquinho, em nome de uma verticalidade que a torre Eiffel não encarna mais do que a teia negra de caminhos de ferro, a fumaça grossa dos navios a vapor, os primeiros movimentos vanguardistas da arte. Esse capitalismo, antes de querer derrubá-lo, o implacável Marx aplaudiu com efusão. Porque o teórico da revolução reconhecia ali um orgulho de si próprio inconcebível para nós, senão por seu legado: a torre; os palácios de exposição; as cidades gigantescas, irrefreáveis; os versos de louvor à máquina.

O que mais causava horror a esse capitalismo da absoluta dinâmica era a estabilidade. Para seus heróis, a segurança que ela oferece era a morte; um atestado de mediocridade, eco de um passado aristocrático que manteve o mundo idêntico a si mesmo durante quase um milênio. Os grandes capitalistas daquela era, cujo maior herói era o engenheiro, declararam guerra à estabilidade e à segurança. Buscaram o risco, quase a loucura. Derrubar e construir, invadir e conquistar, a qualquer custo, sem respeito por nada, nem por ninguém. Um mote seco e claro. Quem vivia segundo outro espírito encheu-se de horror. Guy de Maupassant, reza a lenda, almoçava todos os dias no Jules Verne, restaurante do segundo andar da torre, porque era o único lugar da cidade de onde não era obrigado a vê-la. Considerava-a uma aberração deplorável. Verdade ou não, o fato é que de lá ele não podia se furtar a contemplar uma antiga cidade sendo arrasada para dar lugar a outra, veloz e vertiginosa; uma cidade que não temia a aniquilação imposta pelo capital a seu quotidiano milenar.

Tudo isso, porém, ficou no passado. Esse capitalismo das sucessivas maravilhas resultou em guerras, revoluções reacionárias (sic), bombas de dizimar gerações e gerações. O homem que sobreviveu ao paroxismo ensandecido do modernismo envergonhou-se de suas ambições desabridas. Depois de Auschwitz, fez-se necessário construir um novo mundo, com um paradigma que se substituísse à voracidade. Qual é esse paradigma? Ora, é o oposto do anterior. Ou seja, o receio. Nosso tempo, assim, abriu mão da verticalidade, a não ser aquela comportada, dos espigões perfilados. Alguns brilhantes, outros opacos, mas sempre executados de acordo com as regras mais seguras da engenharia, com vistas a uma eficiência indigitada. Gigantes de concreto e vidro, enfim, mas com as pernas muito bem fincadas no chão. O maior dos males, valha-me Deus!, para nosso tempo, é a instabilidade. Uma doença cuja expressão mais assustadora é a inflação. O dito dragão é o equivalente econômico da erosão, no domínio moral, dos valores de um passado recente. Uma ameaça constante. Exige postura alerta e agressiva. Um contexto fundado sobre o receio de perder não pode, em hipótese alguma, tolerar a inflação.

A ambição vertical e demolidora, que as potências do passado abandonaram nas últimas décadas, subsiste apenas em países que, até há pouco, eram considerados pobres e atrasados. O carro-chefe desse ideal sobrevivente é, sem novidades, a China. A terra das antigas dinastias retraça o caminho do Velho Continente. Uma usina gigantesca, monstruosa, que inunda países e desloca povos inteiros, misturando e desmanchando seus tantos dialetos e costumes. Eis onde querem buscar sua energia. Um estádio embrulhado em cordas sintéticas, indevassável, indefinível, irreconhecível. Um palácio de esportes para esconder o louvor da derrubada e reconstrução. São os orientais, hoje, que não respeitam nada do que já há; pensam no que ainda haverá, e interpretam o presente como mera matéria-prima, tão bruta e maleável como a areia da praia.

Retornemos à torre Eiffel, construída para celebrar a Exposição Universal de 1889, realizada em Paris. Nesse gênero de evento, típico da belle époque, cada país exibia suas novidades mais impressionantes, para escancarar, diante de rivais do mundo inteiro, como era veloz seu progresso técnico. Não há nada parecido em nosso mundo. Há, sim, grandes feiras temáticas, em que as empresas montam suas barracas e alardeiam seus produtos, no esforço de garantir a eles um confortável naco do mercado. Essas feiras são, também, repletas de novidades, por certo. Mas são horizontais, comportadas. Vastas áreas protegidas da chuva, por onde uma multidão de consumidores pode passear sem receio de se levar algum susto.

Não serão esses eventos tão bem organizados, eles que haverão de proporcionar a ocasião do nascimento de algo monumental, como as exposições do século XIX nos legaram a torre Eiffel. Nem quero insinuar que deveriam! Essa aí é monumento, logo símbolo, de outro tempo. Hoje, é administrada, e com grande competência, por uma empresa de capital misto cujo gráfico de lucratividade apresenta, há anos, “bons números”. Garante ao país a estabilidade de uma renda turística regular e farta. E, naturalmente, do merchandising. Esse aí, sim, é um grande símbolo e monumento de nossa era.

Benjamin e a aura de Gentileza

Postado em January 5, 2008
Categoria: Arte, Cinema, Filosofia, História | 7 comentários

Passei as duas últimas semanas tentando pensar em algo para escrever sobre o Profeta Gentileza. Por algum motivo, essa figura folclórica, que sempre me fascinou, não saía de minha cabeça. Começou quando li, no Jornal do Brasil (sim, ele ainda existe, embora…), um texto que relembrava o incêndio do Gran Circus Norte-Americano, em Niterói. A tragédia aconteceu em 1961, quando a terra de Araribóia ainda era capital do Estado do Rio de Janeiro. É a tragédia mais traumática da história da cidade. Deixou centenas de mortos; uma larga maioria, claro, de crianças. 17 de dezembro, pouco antes do Natal.

Pois foi esse incêndio que, há 46 anos, deu à luz o Profeta Gentileza; até então, o homem atendia pelo nome de José Datrino. Nascido em 1917 em Cafelândia (SP), montou uma empresa de transportes em Guadalupe, subúrbio do Rio, e ia muito bem na carreira de empresário, quando o circo pegou fogo do outro lado da baía. Alguns dias mais tarde, Datrino acordou ouvindo vozes. Elas lhe comandavam largar tudo que construíra, para sair pela cidade a pregar o amor. Segundo uma lenda, ele perdeu os filhos na tragédia. Há quem diga que ele largou a família. Nada disso é inteiramente verdadeiro. Como fato, sabe-se que ele plantou um jardim no local da tragédia. Encheu um dos caminhões de sua empresa com vinho e o distribuiu para os passantes. Naquele verde erguido sobre cinzas, que batizou como “Paraíso da Gentileza”, tornou-se “Jozze Agradecido”, o “Profeta Gentileza”.

Não é sua transformação que me atrai, nem sua pregação. A figura, que podia ser avistada com freqüência nas barcas entre Rio e Niterói ou nas regiões centrais das duas cidades, poderia ser confundida com tantos outros profetas apocalípticos e desvairados das nossas cidades. É verdade que ele tinha algo de muito diferente dos demais. Seu rosto era sorridente e sua mensagem, pacífica. Começou sua história, afinal, como consolador das vítimas do incêndio. Daqueles a quem distribuía o vinho, exigia apenas que pedissem “por gentileza” e se afirmassem “agradecidos”. A alguém que o chamou de louco, respondeu que era “louco para amá-lo”.

O personagem

Durante mais de trinta anos, encarnou-se na imagem coletiva dos cariocas e fluminenses em geral. Aquele homem barbudo, cabeludo e sorridente era parte de um mundo muito bem delineado. Sua longa bata branca, bordada com dizeres místicos de amor; sua bengala que fazia as vezes de cajado profético; o estandarte que carregava por todo lado. Era uma imagem do inconsciente coletivo local, quase um arquétipo da religiosidade primitiva que, de tão intrínseca à humanidade, jamais organização religiosa poderá apagar. No máximo, adaptar, distorcer e transformar em formas mais complexas e menos espirituais de devoção.

O personagem Gentileza é o mais interessante – aliás, fascinante – de todos os pontos de vista que se pode ter a respeito do profeta. Homens que abandonaram tudo, esses existem aos montes. Profetas que pregam o amor se encontram em qualquer esquina. Mas o carisma de Gentileza era muito maior (conforme veremos). Ele sempre será lembrado, e isso acontece porque, mais do que protagonista de uma história tocante, José Datrino estava impregnado de um valor estético tão profundo, tão cristalino, que não saberia passar desapercebido.

Para mim, em particular, Gentileza adquiriu recentemente uma importância ainda maior. Suas obras me ajudaram a compreender e, sobretudo, dar razão a uma outra grande figura do século XX, tão admirável quanto fugaz: Walter Benjamin. Através dos painéis e dos ditos do profeta brasileiro, pude entender o quão profundo é o sentido da aura, um conceito difícil de digerir, desenvolvido pelo filósofo judeu-alemão para contrapor a arte primitiva à nossa realidade largamente cinematográfica. Mas chegaremos lá.

Quando eu era garoto, adorava chegar ao Rio pela avenida Brasil – isso, pouco antes de surgir a Linha Vermelha –, para tomar a avenida que passa debaixo do viaduto do Gasômetro. Achava lindos os painéis pintados contra os pilares escuros da via expressa, com discursos que passavam, fugazes, diante de meus olhos, e eu não conseguia ler. O que eram? Quem havia feito? Eu ainda não sabia. Para mim, aquelas palavras desconhecidas estavam apenas ali, uma presença tão misteriosa e significativa quanto as escadarias do Teatro Municipal e os Arcos da Lapa.

Já conhecia muitos viadutos, por cima e por baixo, e todos eram iguais. Feios, encardidos, pesados e perfeitamente funcionais. Não aquele. Ao passar ali embaixo, eu me sentia em outra época e outro país. As cores alegres e primitivas me davam a sensação de entrar numa cidade de fantasia. E, no entanto, era o próprio Rio de Janeiro.

Mais tarde, esqueci as inscrições. Indo ao Rio de carro, minha chegada passou a se dar por uma dessas vias com meia dúzia de faixas em cada direção, como tantas outras que se encontram no mundo. São uma coqueluche, estão na moda, todo mundo adora. Se passei debaixo do viaduto, e isso certamente aconteceu, nem me dei conta da tinta cinzenta que passaram por cima dos escritos misteriosos. Preferia lançar meus olhares para os armazéns caindo aos pedaços, e as grandes carcaças de navios por trás. Eu ia crescendo, e não é assim que acontece com todo mundo?

Nem me lembro de quando tomei conhecimento da existência do Gentileza. Talvez tenha sido por ocasião de sua morte, em 1996, e lá se vão quase doze anos. Ou então quando, mais tarde, o clamor popular conseguiu recuperar o que havia sido escondido. Um dia, enfim, eu me perguntei o que seria das pinturas. Ao mesmo tempo, outras questões ressuscitavam. O que estaria escrito? Com que intuito foram gravadas? Por que foram retiradas?

As perguntas se desenvolveram, se aprofundaram, adquiriram novas feições. É o que acontece com boas perguntas. Não têm solução, mas dão respostas para muitos outros problemas. É aí que entra a figura de Walter Benjamin; e se eu disse que Gentileza me ajudou a capturar seu pensamento, devo admitir que a recíproca é verdadeira. Benjamin foi de grande valia para que eu pudesse enxergar o que representa, de fato, o folclórico profeta do amorrr.

Walter Benjamin

Esse pensador interessantíssimo, fragmentário e apaixonado encontrou a morte mais de duas décadas antes do dia em que Datrino virou Gentileza. Mas, além da luz que uma atira sobre a outra, também une as duas figuras a proximidade que mantiveram com o trágico. O brasileiro largou sua fortuna para mergulhar nas cinzas de Niterói. O pensador alemão, judeu e comunista – combinação pouco segura na Europa dos anos 1930 – tentou ignorar o quanto pôde, malgrado os muitos alertas, o avanço das garras de Hitler. Até ser tarde demais para escapar. Na fronteira entre a França derrotada e a Espanha franquista, o suicídio parecia a única solução para o desamparado fugitivo.

A barbárie subtraiu assim ao mundo um gênio difícil, mas enorme. Socialista que não gostava de Moscou, judeu que não gostava de Israel, berlinense que só tinha olhos para Paris. Um homem que daria tudo para entender a história, a sociedade e a arte, e contribuiu para que se começasse a pensar a arte na história e nas sociedades. Essa reflexão, a que nos interessa, é desenvolvida sobretudo em seu ensaio dedicado ao cinema, chamado A obra de arte na época de sua reprodutibilidade técnica. Mesmo assim, como não poderia deixar de ser no caso de Walter Benjamin, esse trabalho, hoje histórico, teve três versões diferentes (35, 36 e 38), e grande parte de seu significado só pode ser compreendido com a contribuição de variantes e acréscimos que a editora não teve tempo de incluir na redação final.

É muito comum que esse ensaio seja lido como uma comparação saudosista entre, de um lado, a antiga, magnífica e atemporal Arte (maiúscula), obra de gênios como Rembrandt e Rodin; de outro, a fugaz, medíocre e comercial arte de massas do século XX, com a fotografia, o cinema e o fonógrafo. A primeira seria cercada de uma aura algo mística. A segunda, necas. Pois essa leitura não poderia estar mais errada.

Existe, sim, uma dualidade importante nesse texto. De um lado, o cinema. Obra de arte par excellence dos tempos modernos – tempos de industrialização, capitalismo e massas, enormes massas. O cinema é controlável em seus mínimos detalhes: a máquina capta o trabalho do ator sob os olhares atentos do diretor, do produtor, do fotógrafo, de uma enorme equipe de produção. O cinema pode ser retocado até atingir a perfeição, abstraídos os problemas de orçamento. O cinema é feito para ser exibido; a exibição está em seu cerne, é seu valor supremo. Existe para distribuir-se ao redor do mundo, comunicar-se com as massas aglomeradas nas salas, sedentas por imagens que parecem reais, às vezes mais reais do que o real. Daí a enorme dimensão política que Benjamin atribui à sétima arte. Na mão dos totalitarismos, vira instrumento de dominação, opressão e alienação. Mas, aponta o pensador, essa mesma ferramenta perigosa, quando dela se apropriam forças progressistas, serve à resistência, à liberdade e à revolução.

Assim pensa ele; mas deixemos de lado a política. O que há do outro lado da dicotomia que Benjamin abre? Não é, certamente, a arte das academias, nem mesmo dos gênios. Essa é tão voltada para a exibição quando a moderna. Tão comerciável quanto. É mesmo reprodutível, embora em menor escala. Tampouco será a arte das vanguardas, que não raro buscam mais os holofotes da mídia do que o resultado estético propriamente dito. E, para piorar, ainda tentam concorrer com o cinema ou absorvê-lo, como se a tentativa não fosse fadada, desde o berço, ao insucesso.

Ora, opondo-se ao que há de mais moderno está o que há de mais primitivo. A arte primitiva, na avaliação de Benjamin, é aquela que exala a maior das auras; que será essa aura? É “a súbita aparição de algo distante, por mais próximo que esteja”. Uma fórmula bela, convenhamos; mas, convenhamos, nada clara. A distância e a proximidade de que fala Benjamin são resumidos na fórmula “aqui e agora”. A arte primitiva é única. Realiza-se segundo as forças concentradas do homem num único instante, com todas as imperfeições que sua criação carregará, com um conceito vago e dificilmente teórico, com o mutismo da incerteza, esse silêncio mágico que acompanha as maiores verdades. Para Benjamin, a arte primitiva não era feita para ser exibida, como passou a ser regra com o desenvolvimento mercantil da civilização. Ao contrário, muitas das obras mais belas da Grécia clássica ficavam trancadas nos templos, visíveis apenas para os deuses. A obra primitiva era feita para o ritual. Materializava a vocação humana para a adoração ao divino, seja ele qual for.

Arte bruta

E o artista, quem era? Um ser diferente. Muitas vezes, um híbrido, um andrógino, um cego, um louco. Pessoas que viam e viviam algo que todos os demais simplesmente desconheciam. Meio demônios, meio deuses, mantidos à margem da tribo, mas objeto de um respeito reverente dos caçadores, dos guerreiros, dos chefes, das mulheres. De todos. O artista parecia não ser propriamente humano, porque tinha contato permanente com a terra e com os céus.

Nada como o artista do século XX. Mesmo assim, não foram poucos os grandes artistas das decantadas vanguardas que tentaram recuperar esse caráter espontâneo e místico da arte. Picasso colecionava máscaras e tentava imitar suas carrancas em telas e colagens. Gauguin meteu-se no Taiti, atrás da pureza primitiva, perdida, esquecida. Até que o pintor Jean Dubuffet escancarou a questão e cunhou o termo art brut, que dispensa tradução. Surgiu, no século XX, a paixão pela arte feita por não-artistas. Mas esse gosto, na verdade, travestia a atribuição de um valor estético a objetos que foram produzidos sem a menor intenção de serem etiquetados como tal.

Na própria França, o exemplo mais conhecido é o Assoalho de Jeannot, uma série de tábuas com inscrições feitas por um homem desesperado e esquizofrênico no chão de seu quarto, dias antes de morrer por falta de alimentos. Nos EUA, a morte de um faxineiro de nome Henry Darger levou à descoberta, em sua casa, de 15 mil páginas manuscritas com histórias fantásticas e sem nexo. No Brasil, o mais conhecido é provavelmente o sofrido Arthur Bispo do Rosário, apontado pela psicóloga Nise da Silveira como um gênio, muito mais do que um louco.

Algo semelhante vem sendo feito com a figura do Profeta Gentileza; a túnica, o estandarte, os 56 pilares pintados na zona portuária do Rio de Janeiro tornaram-se objetos de exibição museológica. Admirados com a figura enigmática, marcante e carismática do profeta, pesquisadores buscaram suas raízes, artistas compuseram músicas e rodaram filmes. O povo, por sua vez, seguiu espalhando a lenda. Cobertos em 1997 por um engano da companhia de limpeza urbana carioca (Comlurb), durante uma campanha contra as pichações, os painéis foram restaurados com cuidado. Datrino, ou melhor, o Gentileza, batizou a praça em frente à rodoviária Novo Rio, onde fica a primeira das pilastras pintadas. Livros e teses foram escritos. Páginas da internet lhe são dedicadas – menção especial para o projeto Rio com Gentileza, exaustivo e muito interessante.

Aqui e agora

Por que a arte de Gentileza causa tanto impacto em tantas sensibilidades? Há tantos profetas pelo mundo! É verdade que poucos têm uma mensagem tão alegre quanto a de Jozze Agradecido, aquele que era louco para nos amar e salvar. Mas estou certo de que os ensinamentos deixados pelo profeta são menos fascinantes do que a carga estética que ele incutiu no inconsciente coletivo do carioca e, com suas viagens dos anos 70, do brasileiro.

O profeta Gentileza foi personagem épico: perambulou pelas ruas do Rio de Janeiro, pelas barcas, pelos jornais, pelo país, com barba, túnica, cartola e estandarte. Abandonou uma vida de empresário razoavelmente bem sucedida em nome de uma missão que parecia insana. Foi internado em manicômios por duas vezes, e lá dentro conquistou a simpatia de médicos e internos. Ele também foi personagem trágico: imprimiu à própria vida uma série de reviravoltas, com as quais renunciou à existência regular em sociedade. Gentileza foi poeta: criava ditos em profusão, rimas, trocadilhos, provérbios. Inventava variações lingüísticas que deixariam muito concretista embasbacado. Brincava com letras e números, símbolos e desenhos. Versejava sem preocupações com a métrica ou a gramática. Não as venerava, nem empenhava-se, febril, em romper com elas. Mesmo assim, foi mais inventor do que a maioria dos grandes estilistas da língua. Por seus cata-ventos, flores, bandeiras e estrelas, Agradecido foi artista plástico. E pintor, com seus murais. Fazia sua arte do próprio corpo. Uma obra ambulante, pois. Enfim, ele foi imagem, arquétipo, miragem.

Mistura de sacerdote e pária, o profeta Gentileza encarnou, no seio de uma cidade folclórica e traumatizada como o Rio de Janeiro, a manifestação mais próxima (acessível a nós) do que foi o artista primitivo. Evocando Benjamin, podemos ver os pilares do Caju pulsando com a aura de um trabalho tão puramente artístico – mas artístico num sentido diferente, muito distante, do nosso. Mais do que a arte efêmera de Christo ou o Land Art de Richard Long, que buscam freneticamente combater a ilusão da arte ubíqua e mediatizada, o trabalho tenaz e silencioso de José Datrino recupera a essência do “aqui e agora”. Para apreciar a obra ou, melhor ainda, experimentar o efeito maravilhoso e incompreensível que ela pode exercer, é necessário estar diante da coisa em si.

Não seria o caso de remover os blocos de concreto para protegê-los da poluição e dos cartazes publicitários que gente ignara cola sobre eles. As estranhas palavras, as linhas de uma simetria singela, o texto truncado e de um misticismo pouco elaborado, nada mais seriam, transpostas para dentro de um museu, do que curiosidade formal e histórica. Sua qualidade estética, para não dizer artística, só pode se realizar no contexto em que foi criada. Um dia, quem sabe, ainda cometerei a loucura de me colocar entre as pistas da avenida, debaixo do viaduto, exposto ao gás dos ônibus clandestinos, ao barulho das motocicletas desreguladas, ao risco dos mendigos e trombadinhas, apenas para estar ali, no meio daquele milagre da ausência de razão, daquele feito heróico da fé insensata, daquelas cores tão bem dispostas, de maneira tão carinhosa e primitiva.

Foi assim que o profeta Gentileza, sem grandes discursos, explicou Walter Benjamin para mim. Passei a respeitar melhor um autor que, de tão fragmentário e disperso, não chega a ser tão diferente de um artista louco quanto se poderia esperar. E foi assim, também, que Walter Benjamin explicou o profeta Gentileza, o doce artista primitivo, emissário de um Deus todo seu, de amor e graça, figura que não se repetirá, senão em nossa memória. Graças a Walter Benjamin, entendi que Gentileza não foi apenas um curioso personagem urbano. Ele representa algo de profundamente atávico, de que não podemos escapar. E é por isso, enfim, que continua a nos fascinar.

Cento e sessenta marmanjos parrudos

Postado em December 4, 2007
Categoria: História, Política | Comente

Este texto foi publicado na última semana pela seção Palavra do Le Monde Diplomatique Brasil (online), editada por meu amigo e guru Rodrigo Gurgel. Não sou muito de republicar textos; parece um pouco preguiçoso, não sei. Mas vou abrir cá uma exceção; primeiro, porque sou de exceções; segundo, porque considero pertinente. O texto publicado no Diplo é a primeira versão. Desde então, os fatos se precipitaram, a escala de gravidade da situação subiu mais alguns degraus. A segunda versão foi escrita dois dias depois, mas já tarde demais para publicação lá. Assim sendo, ei-lo novamente, com mais algumas atualizações.  

Cento e sessenta marmanjos parrudos

Nunca vi tanta polícia na vida. Nem nos meus tempos de USP. Pouco mais, pouco menos de cento e sessenta marmanjos de coturno, jaqueta negra, capacete azul. Carregavam escudos de acrílico, transparentes, cujo formato inspirado no modelo celta me pareceu ridículo. Tropa de choque, pois não. Espalharam-se pelas portas da universidade e, por falta do que fazer, tentaram puxar assunto com algumas estudantes de saia curta e maquiagem carregada. Não conseguiram, para delícia dos rapazolas enciumados.

Chegaram em camburões azuis. Oito por uma rua, oito por outra, interromperam o trânsito. Homens parrudos de cabelo quase raspado desciam em golfadas, velozes e determinados. Postaram-se diante das três portas como guardiães de um forte. Foram chamados pelo diretor da universidade. Na hora do almoço, os estudantes, reunidos em assembléia, haviam decidido bloquear o edifício para discutir o mais recente projeto de reforma universitária. Mas as novas sentinelas lhes negaram o prazer de interromper os cursos: essa tarefa ficou a cargo dos próprios policiais. Passaram o resto da tarde impedindo a passagem de alunos e professores, enquanto os jovens apenas batiam papo no meio da rua.

Não sei como esse povo consegue protestar às portas do inverno. Morto de frio, certo de que pouca novidade haveria por ali, tomei o caminho da biblioteca. Para minha sorte, ela não fica no mesmo edifício em que os cursos têm lugar. Sim, isso é uma aporrinhação sem tamanho. Hoje, porém, foi providencial. Pude me abrigar em ambiente aquecido e, no caminho, recapitular os eventos das últimas semanas. Bloqueios, desbloqueios, passeatas, manifestações, tropa de choque. Terei histórias para contar aos netos!

No meio da algazarra e do fogo cruzado, minhas preocupações são egoístas. As férias de fevereiro, em que pretendo ir ao Brasil, estão ameaçadas? Como saber? Há dois anos, todas as universidades da França cruzaram os braços por três meses. Um projeto de escravização dos estudantes foi retirado, o primeiro-ministro caiu, a juventude triunfou. Em 2007, a história é outra. Só alguns departamentos de um punhado de escolas decidiram parar. É difícil revogar leis sem um mínimo de unanimidade. Desta vez, boa parte dos estudantes são favoráveis ao governo. Pois a lei não é de escravização, como a outra, mas de modernização. Com o que a palavra tem de bom e de ruim. E, sobretudo, hoje o governo é outro. Saiu Chirac, o tíbio. Entrou Sarkozy, o ambicioso.

O atual presidente da França é um dos personagens mais interessantes de nossa época. Já tem ao menos um mérito. Recolocou o território dos gauleses nas manchetes políticas do mundo inteiro. O Hexágono andava escanteado, como se sabe. Frente ao crescimento das novas grandes potências China, Índia, Rússia , ninguém dá bola para a velha Europa. Continente decadente, uma burrice aparelhada de museus, já disse o Otto Lara Resende. Mas com Sarkozy é diferente.

Olhar fulminante, nariz enorme, estatura baixa, sobrenome estrangeiro, personalidade centralizadora e implacável. Poderia ser uma descrição de Napoleão, o outro imperador que quis reformar o país de um só golpe. Mas o caso de Sarkozy é diferente. Suscita a mesma questão em milhões de mentes. No âmago, quem é ele? Um reformador imbatível, paladino da eficiência? Ou um fascista-racista-xenófobo? O mundo inteiro, pelo visto, quer saber. Alguns trazem à lembrança a tarde em que, ainda ministro, Sarko chamou os rebelados da periferia de “escória” (racaille). Outros apontam para os projetos de modernização do Estado. Uns têm calafrios com a idéia de exames de DNA para imigrantes. Outros acreditam que ele eliminará privilégios antigos. E por aí vai.

Nada impede que ambas as respostas estejam corretas, é claro. Mas hoje, pude verificar duas coisas. Em primeiro lugar, presenciei a manifestação de uma política de confronto exacerbada, que manda cento e sessenta policiais da tropa de choque para impedir uma dúzia de estudantes de bloquear uma universidade. Difícil não associar essa idéia, como as pancadarias no subúrbio, à dificuldade de manter a ordem só com boa administração e o diálogo político. Ponto para quem acha que Sarkozy não se entende muito bem com a democracia. A polícia é feita para patrulhar ruas, evitar crimes e solucioná-los. Quanto menos ela cumprir esse papel, mais ela será obrigada a recorrer às pancadas e tiros. Nós, brasileiros, conhecemos bem o que é isso. E os franceses estão aprendendo, a começar pelos subúrbios incendiados.

Finalmente, o principal. O que é eficiência, senão a capacidade de obter um máximo de resultados, alocando um mínimo de recursos? Nem o mais aloprado dos econometristas haverá de encontrar traços de eficiência no ato de mandar cento e sessenta policiais (escrevo por extenso pelo impacto) para combater uma minúscula greve de estudantes? Para fazer o serviço, tantos homens são desnecessários. Se não houvesse problemas de criminalidade em outras áreas da cidade (e os há, cada vez piores), isso indicaria que as forças da ordem têm excesso de contingente. Caso contrário, a população está sendo exposta ao risco para que o governo mostre força diante das câmeras, contra estudantes cujo movimento não se compara, nem de longe, ao de 2005. A não ser, é evidente, que a ordem seja buscar o espetáculo. Mas isso… já não sei.

Retornemos ao que é certo e concreto, ou seja, à narração de minha segunda-feira. Cansado da biblioteca, tomei uma bicicleta e voltei para casa. Pedalando ao anoitecer, fui ultrapassado por alguns dos camburões, que rumavam para a caserna. Policiais na universidade, que coisa! Dá uma estranha sensação de volta no tempo, como se os anos 60 e 70 se intrometessem em nossa vida. Só que os fatos contemporâneos deixam uma impressão de frivolidade. As tensões ideológicas e políticas daquelas décadas e desta dificilmente podem ser comparadas. A truculência contra os universitários é leviana; e contra as populações do subúrbio, é perigosa.

É difícil compreender o propósito do festival de policiais à porta do campus. Na última semana, por sinal, os estudantes haviam votado pelo fim gradual da greve, com a alegação de terem descoberto meios legais, muito mais eficientes, de derrubar a lei que detestam. Voltaram atrás justamente para explicitar o descontentamento com os brutamontes que lhes vetavam a livre passagem.

Só o que sei é que todos ficam bem na foto. Sarkozy é duro. Não deixa estudante ameaçar seu governo. A polícia é dura. Não deixa estudante bloquear a faculdade. Os estudantes são duros. Não deixam o governo intimidá-los. E eu, apanhado de surpresa pela querela, sou brasileiro, sabe como é, coração mole, boa-praça. Enquanto espero as definições, aproveito para não precisar encarar o frio. A exemplo de meus vizinhos nativos, ou a maior parte deles, assisto pela televisão à sublevação da periferia. Quando acaba o noticiário, ataco a bibliografia, estudo violão e escrevo para o Diplo. A universidade vai reabrir, isso é certo. E também é certo que, do subúrbio, logo ninguém se recordará.

Atualização: esta manhã, não tive aulas; fiquei estudando em casa. À tarde, recebi a informação de que a tensão chegou às vias de fato. Um grupo tentou protestar contra a presença policial no campus, mas foi calado por bombas de gás lacrimogêneo e a dose regular de braços torcidos, cascudos e cacetadas. Mamutes de 130 quilos contra rapazes de 70 e moças de 50.

Como se vê, fica provada a tese de que faz parte da educação de um Estado de direito o aprendizado da confrontação de idéias, posturas e atitudes políticas. Questões da universidade devem ser resolvidas pela universidade. A violência, venha de onde venha, põe a perder o processo de formação dos cidadãos.

Vinda do governo, a agressividade é uma aberração, sobretudo para cima de uma instituição pública, como é o caso da Sorbonne. É o país comprometendo o amadurecimento de seus próprios cidadãos, e logo aqueles que serão mais influentes nas décadas vindouras. A História mostra que esse não é o caminho da estabilidade ou da democracia.

Pensamento e nariz-de-cera

Postado em November 8, 2007
Categoria: Filosofia | Um comentário

Este espaço anda reclamando com veemência e toda razão do abandono em que se vê há coisa de um mês (não contei, mas deve estar por essa casa). Como um personagem de Nelson Rodrigues, ele enfia o dedo na minha cara, solta uma baba bovina e elástica, e vocifera, o olho rútilo (estou esquecendo de alguma fórmula?): “Preguiçoso! Burro! Contínuo!” E de que adianta contemporizar, apontando para a redução dramática das atualizações também do outro blog? Redução, este aqui contra-argumenta, é coisa inteiramente diversa do puro e simples silêncio. Para finalizar, ele acrescenta, teatral: “Queres matar-me, expelir-me da vida como o cálculo renal que sou!”

O que o blog espera, com isso, sei bem o que é. Quer me carregar às lágrimas. Impedir-me de pegar no sono quando é madrugada e preciso recompor as forças. Mas ele pode tirar o cavalinho da chuva: não há de ser por uma página de internet que chorarei e sofrerei de insônia. Ao contrário, respiro fundo e me entrego às explicações. Não é nada disso, começo dizendo. Tenho pensado muito em atualizar o Cálculo Renal. Se tenho! Quase todos os dias, rumino sobre uma boa meia-dúzia de temas que merecem discussão, reflexão e publicação. As idéias me martelam a mente, enlouquecidas. Querem ir para o papel ou, no caso, o processador de texto (freqüentemente, ambos).

Se este blog se tornou um limbo, a explicação está em outra parte. Que parte? Adivinhou quem escolheu o caminho do óbvio: a desculpa é a falta de tempo. É uma justificativa velha, eu sei, mas honesta, pelo menos neste caso. Desde que o ano recomeçou, ou seja, em Outubro, não pude me dedicar às atividades que dão gosto. É necessário adaptar-se à reformulação generalizada da realidade, e isso exige um esforço de concentração de que, em geral, nem desconfiamos.

Acostumados que estamos à cabeça sempre equilibrada acima dos ombros, deixamos de pensar que ela, assim como nós e todos os demais viventes, tem suas vicissitudes, limitações e volições. Ademais, sabemos muito pouco sobre ela; veja bem, estou falando da mente, não do cérebro. Esse aí é um órgão concreto, cinzento, identificável e que se pode indicar com uma seta (é ali), que subsiste porque é alimentado por uma corrente sangüínea cuja voltagem não se poderá jamais definir. Encarando apenas por esse ponto-de-vista, podemos descrever o pensamento em termos de áreas que se ativam e adormecem, descargas elétricas que fritam e unem neurônios, da mesma maneira como descrevemos a visão, a fome e o desejo sexual.

Quem dera fosse tão simples! O pensamento é traiçoeiro, esconde-se quando é invocado, repete-se sem motivo, altera-se sem pedir autorização, e sobretudo, apresenta-se por trás dos maiores narizes-de-cera quando tudo que se exige dele é a objetividade, essa quimera de nossos tempos. O pensamento não está, e nem podemos supor, por analogia, que esteja, sempre a repousar na gaveta do cérebro, tranqüilo, apenas esperando para ser acessado e utilizado tantas vezes quanto nos parecer agradável. Já que estamos na onda das metáforas, posso me permitir a liberdade de dizer que o pensamento lembra muito mais, pela forma como se apresenta, uma neblina espessa (nem sempre), translúcida, imaterial; e sabe lá onde, em que ponto do espaço, ele está…

Céus, vejo que caí numa armadilha idealista. Poderá alguém apontar o dedo entre meus olhos (como andou fazendo este blog, por outros motivos) e me acusar de professar a existência imaterial do pensamento, como se eu fosse um cartesiano qualquer! Devagar com a louça, amigo. Repilo a acusação, assim como renego qualquer tendência a atirar às costas de conceitos vagos, como as Idéias platônicas ou a alma tomista, a responsabilidade sobre esse místico e mágico pensamento imaterial. Nada disso.

Só para inverter o quadro, eu poderia mesmo dizer que, a rigor, o pensamento, tomado individualmente, nem mesmo existe. Mas isso, honestamente, seria apenas uma frase para chocar o leitor e segurar sua atenção por um pouco mais de tempo (leitores costumam ser arredios). É claro que o pensamento existe: tudo aquilo que age sobre o mundo existe, e bem sabemos como o pensamento pode transformar a realidade, diretamente (imediato) ou através de corpos físicos (mediato), tanto faz. É um fato, e pronto. Não obstante, existem inúmeras maneiras de existir. Exemplos: você e eu, o Saci Pererê, o Mickey Mouse, Deus, o Mercado (também uma divindade para muita gente), são todos exemplos de coisas que existem, cada um à sua maneira. Mesmo que tenhamos um conhecimento limitado ou equivocado dos raios e modos de existência de cada um. Isso é outra história.

Acontece que, quando falamos na existência de algo, já estamos, implicitamente ao menos, aceitando alguma forma de permanência. Algo existe quando delimita um período; internamente, podemos dizer assim, cada ponto seu tem um passado e um futuro, assim como um “em-si” e um “fora-de-si”, para colocar de maneira mais simples. Se chegamos a nos convencer da existência de alguma coisa, é porque delimitamos seu espaço e definimos onde ela começa e onde termina; no espaço, esses limites são razoavelmente claros. No tempo, raramente.

Quanto ao pensamento, eis aí algo de existência muito fugaz e incerta. Está bem mais no tempo do que no espaço, se é que está no espaço de alguma maneira mais concreta do que simplesmente “na minha cabeça”. De tal maneira que, quando repensamos um pensamento antigo, já não é mais o mesmo. É um novo pensamento, inteiramente reconstruído, que já inclui na própria natureza a representação do pensamento que tenta reproduzir; e, por isso mesmo, está longe de ser uma reaparição da mesma identidade. O pensamento antigo entra no novo apenas como parte constituinte, e isso se explica pelo fato de que, nesse segundo momento, está presente a noção de que o pensamento anterior pertence ao passado.

Um bom exemplo para ilustrar o argumento está no poeta que, caminhando pela rua sem seu bloco de notas, compõe mentalmente uma seqüência de versos. À medida em que vai pensando cada um, para adequá-lo à totalidade do poema, é necessário repensar os outros. Diversas vezes. Mesmo que sejam os mesmos versos, e nem sempre o serão, não é o mesmo pensamento: é antes uma micro-arqueologia mental que reconstitui o pensamento do verso já formulado pelo nebuloso pensamento. Mais ainda, quando o artista, impaciente para redigir sua nova obra, projeta-se para dentro de casa e toma o caderno, a transcrição do poema, decorado que esteja, não será fruto do mesmo impulso de pensamento que deu à luz o poema, durante seu passeio. Será um novo pensamento para o mesmo poema.

Todo esse raciocínio, longo e imbricado, foi seguido com o único intuito de explicar por que seria possível dizer que o pensamento não existe, ao menos individualmente, se quiséssemos brincar assim. Mas há algo além disso: o pensamento é um ato da mente que só existe enquanto é ato, em plena realização. Não é tanta loucura afirmar algo assim. O próprio senso comum já o trata de forma parecida: um pensamento já pensado é memória, no máximo, com toda a incerteza e o risco desse nosso maravilhoso atributo. Um pensamento escrito é texto, e o texto, céus, tem vida própria (e quanta!). Um pensamento pronunciado, traduzido em vibrações do ar, é verbo, e o verbo voa, já diziam os romanos. Cada um entende e interpreta, ou seja, repensa, à sua maneira.

Foi por conta desse caráter inconstante que comparei o pensamento a uma neblina. Ele, a princípio, não tem ordem, nem controle. Colocá-lo na linha é uma batalha que demanda a energia de um exército. A vontade, ou antes, a força de vontade, é um elemento crucial na determinação da chamada linha de pensamento - por si só, o pensamento é refratário a toda espécie de linha! E, cá entre nós, parece-me muito mais estranho e pouco convincente querer explicar a vontade em termos de impulsos elétricos no interior do cérebro. Afinal, o que determina que um impulso seja disparado? E, uma vez que isso seja determinado, como se “escolhe” qual será o impulso?

Até onde sabemos, essa problemática, inteira, gira em torno de um ente imaterial, irreal e inexistente que age sobre o universo do material, o real e o existente. Pensando bem, é uma idéia terrível, verdadeiramente assustadora. Que raios pode ser o imaterial? É melhor não falar nisso. Através da História, já estamos cheios de gente que se precipita nas conclusões, principalmente quando o assunto é algo tão espinhoso quanto o pensamento.

Retornemos ao palpável. Além da vontade, fenômeno interno, há como determinante do pensamento um fator externo representado num universo que, consciente ou inconscientemente, tanto faz, exerce suas influências. Mas isso já deixou, há muito, de ser um problema: é fácil e pouco polêmico ler as reações de alguém a esses estímulos externos como respostas físico-químicas, da mesma forma como se pode fazer para as atitudes instintivas e irracionais de maneira geral. Mas é claro, observará o leitor arguto, que o pensamento não é instintivo e irracional.

Discordo: o pensamento é tão irracional quanto qualquer outra faculdade do cérebro humano. Toma corpo por meio de representações e imagens que surgem das trevas mais recônditas do espírito. O único milagre pelo qual um pensamento se transmuta em algo racional, e faço questão de afirmar que é um milagre, ocorre quando o pensamento se torna o centro das atenções da nossa consciência, o olhar que se volta para dentro e tenta tomar o controle sobre o funcionamento do tecido cerebral. Afora essa rara ocorrência, agimos tão instintiva e mecanicamente quanto qualquer animal irracional. O pensamento, pois, só é propriamente humano, no sentido de que é propriamente humano aquilo que é racional, quando age sobre ele a nossa força de vontade, a nossa liberdade, para falar em termos mais filosóficos (kantianos, especificamente); mas aí retornamos ao problema de alguns parágrafos atrás: de onde vem essa vontade, matriz da razão? Boa pergunta.

Chega de discutir o pensamento; isto não é um tratado, não pode se estender por dezenas de páginas. Sobre a idéia de que a vontade está na base da racionalidade e, portanto, do que é propriamente humano, pretendo voltar a falar em outro texto, quando estiver um pouco mais calmo (se é que, algum dia, estarei). No que concerne à vida prática, isto é, à minha: o grande esforço, neste momento, é direcionar a vontade e o pensamento para aquilo que é exigido pelo mundo do entorno: os estudos, os trabalhos, a famosa rotina de quem não tem um emprego público europeu para poder relaxar e esperar o fim de seus dias. Eis por que o Cálculo Renal anda às moscas. O mesmo vale, em menor escala, para o Para Ler Sem Olhar. Mas, pouco a pouco, quando a repetição de gestos e horários tornar meus caminhos automáticos, pretendo voltar a engrenar as postagens. E que o blog, nesse meio-tempo, não desista de mim.

O mistério de Agatha Christie

Postado em October 16, 2007
Categoria: Literatura | 7 comentários

Como são curiosos, os caminhos que o pensamento vai tomando! Já tinha pronta, na cabeça, a estrutura argumentativa de um texto, mais um, sobre política, a partir de algumas declarações levianas, porém interessantes, de Nicolas Sarkozy, o chefe de Estado deste início de “Terceiro Império” francês (ao qual só falta um império). Porém, numa dessas ocasiões em que me ponho a flanar por aí, fui assaltado por um ponto de interrogação que nada tem a ver com nada, não sei como foi parar no meio do meu raciocínio e, afinal, alterou radicalmente meu plano para este blog. A tal ponto que deixo de lado a política para tratar de literatura. Mais uma vez, mais uma vez. Sarkozy vai ter de ir para a geladeira. Désolé.

O pensamento que me atingiu de supetão foi algo de bem prosaico: simplesmente, não sei dizer se Agatha Christie escreve bem. Não é o caso de questionar se as histórias, os enredos, os personagens, são bons ou não. Falo da prosa. É boa? Fluida, poética, bem trabalhada? Boa pergunta. Não me lembro. Ou melhor, é injusto dizer que esqueci. Eu nunca soube. Lia Agatha Christie num tempo em que a maneira de escrever de um autor não me interessava em absoluto. Ou antes, muito pouco, e quase jamais por um ângulo racional. E li bastante. Havia uma prateleira inteira de Agatha Christie na casa em que cresci. Posso dizer, sem falsa modéstia, que a limpei. Alguns em português, outros em inglês, li todos os volumes disponíveis.

Igualmente, limpei as prateleiras de Conan Doyle e Maurice Leblanc. Mais do que Washington ou Assis, fui um garoto que queria ser Sherlock Holmes ou Arsène Lupin quando crescesse. Falhei em ambos, naturalmente. Por outro lado, esses cânones vetustos da literatura policial participaram profundamente em minha formação como leitor. É até estranho que, mais tarde, tenha encerrado quase inteiramente minhas incursões pelo gênero. Li Poe, mas só uma arte do que esse aí escreveu pode ser considerada policial. E li Dashiell Hammet; muito pouco, é verdade, mas o suficiente para que eu possa me arriscar a dizer que foi ele o autor a me introduzir às preocupações de ordem estilística.

Completando esse processo, ficaram na penumbra as memórias de minha leitura juvenil. Abandonei criminosos e detetives. Por quê? Não foi intencional. Não sou daqueles que desprezam o romance policial como um todo, esnobando-o sob a alcunha de gênero menor. Pelo contrário, a atmosfera do noir me encanta enormemente, e não consigo ver por que um gênero teria maior ou menor habilidade para escarafunchar a dimensão metafísica e existencial do homem, como pode fazer com tanto sucesso a arte literária dos maiores autores.

Talvez seja, justamente, por culpa deles. Os autores. É possível que eles reservem suas maiores energias estéticas para livros outros, sobre adultérios, doenças, guerras, misérias muito mais trágicas, universais, e só se metam a falar de mistérios e crimes, digamos, menores, quando querem relaxar a cabeça. Os vícios que escorrem pelas calhas da urbanidade umbrosa dificilmente têm o mesmo charme dos traumas cintilantes e eternos. Paciência. Ou, ainda, eles podem ser tão habilidosos que, ao ler um livro policial muito bem escrito, de grande valor estético e metafísico, eu nem me dê conta do gênero ao qual pertence. São ardilosos, esses escritores.

Mas isso tudo são meras conjecturas, então retorno a Agatha Christie, a distinta senhora cheia de idéias inconfessáveis, decana no gênero dos detetives, que suscitou todas essas reflexões. Como disse, faz anos que não leio uma linha do que ela escreveu, e não consigo mais afirmar se, estilisticamente, seu texto é ótimo, bom ou medíocre. Tendo a crer que não há de ser inteiramente mau; caso contrário, ela jamais teria se tornado Dama do Império Britânico. De Conan Doyle, ainda me lembro que uma de suas descrições, interminável aos meus olhos de criança, deu-me ganas de escrever páginas e páginas sobre o mero ato de abrir uma porta. Para imitá-lo e, vá lá, satirizá-lo. Mas de Agatha Christie, não lembro nem como eram suas descrições.

Repito que não estou aqui querendo emitir um julgamento sobre sua obra. Para mim, há quatro maneiras bastante simples de constatar a grandeza de um escritor, embora elas sejam dificilmente delimitáveis e se entrecruzem com freqüência. Um crítico rigoroso poderia rir de meus critérios, mas, ora, não somos críticos, certo?, somos leitores. E esses critérios bastam para que um leitor atento estabeleça um panorama de uma obra ou um autor. Vamos a eles.

O primeiro critério, banal e intuitivo, reside nas histórias que são contadas. São interessantes? Instigantes? Não preciso dizer que esse é um elemento fundamental para muitos gêneros, e em particular para o policial. Vamos convir que não adianta escrever lindamente sobe um crime que pouco interessa ao leitor. Se não houver um suspense qualquer, a ser muito bem tecido pelo autor, ter um bom desempenho nos demais critérios dificilmente ajudará. Mas há livros que dispensam inteiramente o enredo, ou nos quais ele é secundário. Excelentes exemplos estão em João Gilberto Noll, Marcel Proust (Em Busca do Tempo Perdido) e Ferdinand Céline (Viagem ao Fim da Noite). Não interessa como começa a história, nem onde termina, mas o que está no meio. Às vezes, nem história há…

O segundo consiste na construção dos personagens e, por extensão, na invenção de um universo em que circulem. Inventar e, com isso, possuir personagens apaixonantes, carismáticos, emblemáticos, por que não dizer, arquetípicos, é meio caminho para tornar uma obra de ficção inesquecível. Mas, cumpre não esquecer, acima dos personagens, está seu mundo, sua realidade, seu universo, em que o romancista tentará, por todos os meios, mergulhar o leitor, até que ele perca toda vontade de voltar à superfície, e seja tomado por um vazio quase existencial quando o livro chegar ao fim.

O terceiro é, finalmente, o estilo, a prosa, a destreza do artista das letras que propicia, à leitura de um único parágrafo, ou mesmo uma única frase, um prazer inexplicável. Essa espécie de fruição, tipicamente poética, arrisca mesmo de nos conduzir a perder a atenção no que está escrito, em função de saborear apenas o como está escrito. E isso não é ruim. Acontece não raro com leitores de Guimarães Rosa, de Proust, de Joyce. Chega-se a perder o fio da meada. Não me lembro do desempenho de Agatha Christie neste quesito, nem espero dela uma prosa como a de um Faulkner. Longe de mim.

A última característica que me interessa nos livros é, desculpem, mais árida, abstrata, distante das categorias mais formais do texto. Peço licença para essa liberdade; acredito que é a influência de minha queda pelas filosofices. Para mim, faz uma diferença enorme o potencial de uma obra como proposta ou tentativa de abordagem da realidade; seja a humanidade, a sociedade, o mundo contemporâneo, a presença constante da morte, o que for. Nesse campo, Balzac é um deus, Machado de Assis é outro, Borges é uma espécie de Júpiter e Henry Miller é Exu. Grosso modo, claro.

Pensando bem, amarrando esses quatro conceitos, é possível entender o que leva um indivíduo em idade produtiva, como eu, a se enfiar na leitura, em vez de investir em derivativos, algo muito mais lucrativo, simples e de acordo com as engrenagens da História. Não leio um livro apenas pelo enredo. Para isso, por exemplo, há jornais, que têm a vantagem de falar de fatos verídicos. Nem pelos personagens, evidentemente. Alguns amigos são os melhores que possam existir, fora os meros conhecidos e aqueles de quem ouvimos falar. O estilo tampouco basta; imagens poéticas são encontráveis em profusão, muito mais trabalhadas e evidenciadas, em poemas, naturalmente. E é evidente que não leio livros de ficção em busca exclusivamente da maneira como espelha e digere o mundo. Há uma infinidade de tratados que o fazem com muito mais rigor.

Um livro, ora, é um produto artístico, e a arte não saberia se manter confinada a um único sentido, sob pena de tornar-se medíocre, dispensável e facilmente esquecível. Para entender o fascínio da arte em geral, e da literatura em particular, sobre a minha humilde sensibilidade de receptor, é preciso somar esses elementos, imiscuí-los, dissolvê-los a ponto de se confundirem. Quando eles são separáveis apenas por um exercício aprofundado e voluntarioso de reflexão, a obra atinge o máximo de seu potencial.

Fundamentos teóricos à parte, voltemos, mais uma vez, à autora que está na berlinda. Agatha Christie criou alguns dos mais memoráveis personagens do gênero policial. O inspetor Poirot está gravado no inconsciente de gerações e gerações, junto com figuras como Sherlock Holmes, Jeckyll e Hyde, Madame Bovary. Quantas moças oprimidas, na última centena de anos, a ambição de tornar-se uma Miss Jane Marple? Não é questão de contabilizar a massa de pessoas que conhecem esses nomes. Todos eles perdem em popularidade para o Pluto e o Batman. Mas carregam uma gama de significados que tornam sua existência uma parte fundamental da cultura posterior, com uma profundidade muito maior do que a turma do Mickey ou do Super-homem. Ponto para ela.

As histórias de Lady Mallowan também fazem parte da antologia do século XX. O Caso dos Dez Negrinhos, O Assassinato de Roger Ackroyd, O Assassinato no Expresso do Oriente, são livros que mesmo o mais exigente dos eruditos já leu, ou pelo menos passou os olhos. Contribuíram para formatar a fantasia coletiva de toda uma época, com ecos que se percebem até nossos dias. O suspense dentro de um trem ou uma ilha dificilmente deixam de cativar aquele que se aventura a passar alguns dias com o volume aberto diante dos olhos. Ponto, mais uma vez.

Nos outros dois critérios, as discussões são possíveis. Ela escreve bem? Não sei, mas certamente não escreve mal. Será que, a partir de todos esses thrillers de mistério, podemos traçar uma nova abordagem ou um novo conhecimento do homem e do mundo, como acontece quando lemos Dostoiévski ou Robert Musil? Dificilmente. Não nesse nível. Mas é inegável que um certo modo de vida britânico e, freqüentemente, europeu, está presente nos romances e peças.

Também sabemos que o gênero policial floresceu na primeira metade do século passado, época em que ela mais escreveu, com Maurice Leblanc, Dashiell Hammett, Raymond Chandler e uma série de autores menores, hoje esquecidos. Eram tempos de mafiosos reais e imaginários, milícias extremistas, espiões e agentes duplos de tudo que é nação agindo em tudo que é cidade. Não é à toa que mistérios e crimes fizessem sucesso na literatura. E Mme. Clarissa se destacou no meio de tantos. E pluribus unum, não há de ser à toa.

Depois de todas essas divagações, deu vontade de reler algum livro dela. Mas não vai acontecer. É uma página virada em minha vida, tenho já uma pilha grande demais de livros para ler, meus interesses são outros. Mas resta o fato de que, afinal, agora estou certo de que minha antiga leitura policial não foi perda de tempo, e ainda relembrei alguns livros que me divertiram muito, alguns anos atrás. Quem disse que a fruição não pode ser retrospectiva?

Como nasce um artista

Postado em October 2, 2007
Categoria: Arte, Literatura | 9 comentários

Não tem funcionado, nos últimos tempos; mas, historicamente, a França sempre foi o país mais eficiente em termos de auto-promoção. Neste início de século, talvez eles ainda creiam que são o mais culto dos países, onde se faz a melhor arte, a melhor cozinha, em suma, o melhor qualquer coisa que não seja “essa cultura de mercado rasteira” que vem do outro lado do Atlântico. Eventualmente, contudo, ainda é possível sentir os ecos dessa fama toda. Como Pablo Picasso, Julio Cortázar e Maria Callas, muitos jovens artistas e aspirantes vêm tentar a sorte por aqui, seja para obter algum aprendizado, seja porque crêem na fortuna e esperam topar com a sorte e a fama numa dessas esquinas enfeitadas com cafés. Além dos universitários, como eu, existem por aqui os aventureiros, intrépidos poetas, pintores e escultores com nomes por fazer.

A sorte, claro, é de quem aprecia a arte, a literatura, as boas discussões filosóficas, culturais, políticas. Dou um exemplo de um colega meu, que, apesar da dedicação inquestionável aos estudos, tem mesmo é o sonho de fazer-se autor. Contei-lhe de meus blogs, ele os visitou, não se interessou em seguir o exemplo porque sofre de uma incurável timidez virtual, mas se afeiçoou de mim. A tal ponto que passou a me trazer as linhas que traça, para que eu as comente, como se fosse algum grande crítico ou entendedor, e dê sugestões e idéias.

É um prazer enorme ouvi-lo contar das madrugadas que passa em sua escrivaninha, sentado na mais desconfortável das posições, escrevendo, sempre à mão, as histórias que vai construindo à medida em que a caneta passeia pelo papel. Tenho uma certa inveja dessa forma de ser, confesso. É meu lado romântico, às vezes mais forte do que eu gostaria de admitir. Sua empreitada mais recente, ele me contou, é a composição de um romance, desses que têm centenas de páginas e dezenas de personagens, e podem alçar um rapazola à glória, como creria um personagem de Dostoiévski.

Mencionei-o porque o reencontrei há alguns dias, após tantas semanas de férias em que estive dedicado a atividades que nada têm com os estudos. Ele, naturalmente, também: pôde entregar-se de corpo e alma a esse tal livro. Cheguei a pensar que o veria altivo, luminoso, ansioso por me contar sua experiência como romancista. Qual o quê. Vinha cabisbaixo, assoberbado pelas olheiras, os ombros caídos como se carregasse correntes no pulso.

Abracei-o, mas seu corpo estava amolecido. Não pude mais disfarçar. Perguntei-lhe qual era o problema. “Nada”, ele tentou me enganar. “É só que”. A frase não terminou nem com as devidas reticências. Era, isso mesmo, só que. Mas acabou falando: “Escrever é muito difícil. Não sei se consigo”. Tentei reanimá-lo argumentando que sempre leio seus escritos, e os acho ótimos. Que nada me daria mais prazer do que ler outros. Que ficaria muito triste se soubesse que ele havia abandonado sua arte.

Não havia. Muito pelo contrário. O que lhe passou foi um processo digno de filme épico. Um grande ataque de auto-crítica, capaz de arrancá-lo aos trilhos, seguido de um processo de combate e aprendizado pelo qual todo artista deveria passar antes de pendurar esse título no peito. Segundo me explicou, era de praxe, até meados de junho último, que ele escrevesse laudas e laudas todo dia. Dez, quinze páginas. A cada madrugada, um conto, um artigo, um ensaio, parte de uma peça de teatro. Tinha material, ou achava que tinha, para volumes inteiros.

A bem da verdade, já procurara editoras no Brasil. Todas o haviam recusado, isto é, todas que ele considera sérias e aceitáveis. Não queria desperdiçar seu material com uma casa que publica qualquer um, sem tomar atitudes para promover o autor e torná-lo um best-seller. Esse material todo estava na gaveta.

Durante as férias, os escritos secretos foram resgatados da tumba. Meu pobre colega releu tudo, não gostou, achou mal escrito, pueril, sem estilo. Decidiu-se a recomeçar do zero. Tomando a caneta, teve necessidade de trabalhar cada frase inúmeras vezes. Escolher as imagens poéticas que valia a pena encaixar, e quais deveria cortar sem dó. Passou a preocupar-se com o ritmo, a fluidez dos parágrafos, a riqueza dos diálogos.

Era o fim de uma era. Laudas e laudas todo dia, nunca mais. A produção encolheu. De repente, ele se via não conseguindo escrever mais do que uma página, às vezes uns poucos parágrafos. Isso não significa que se perdesse em devaneios e fosse incapaz de se dedicar a seu trabalho de fato. Pelo contrário, seu afinco era até mais agudo que jamais. Os textos, ele disse, deixaram de escorrer, límpidos, cristalinos. As páginas tornaram-se trincheiras de garranchos e rabiscos. Parágrafos barrados, grandes cruzes sobre as páginas, remendos na vertical, essa passou a ser sua nova realidade.

Quando me contou que quase chorava ao considerar, até que enfim, um trecho satisfatório, tive vontade de também chorar. Como é difícil, confessou, aceitar que uma descrição, uma narrativa, um diálogo, o que seja, é chegado a seu ponto de melhor construção, além do qual qualquer modificação será para o pior… Como é difícil, prosseguiu, encontrar esse ponto! Como é doloroso! Que ofício ingrato!

Tornou-se nítido, então, que o desabafo lhe fizera bem. Estava mais leve, embora o silêncio tenha revelado uma respiração ofegante. Achei, em algum momento, que ele sorria. Estaria ele a ponto de desistir da arte, seu principal esteio na vida, para se entregar à existência mesquinha de quem só procura sobreviver? Antes que me anunciasse uma intenção que, a meu ver, corresponderia ao suicídio anímico, pedi para ler algo que tivesse produzido depois de sua crise. Relutou, relutou, diria até que refugou, mas acabou cedendo e prometeu levar-me umas linhas no dia seguinte.

Pois bem. Em menos de uma página, narrava-se a cena de uma bela mulher que discorre sobre seus anseios diante de um homem sem interesse. Eu queria ler tão lenta e cuidadosamente quanto ele escrevera, mas o texto me traiu. As sentenças desaguavam umas nas outras sem que eu pudesse controlar o fluxo. O humor era implícito, a poesia mais ainda, a composição cuidadosa do autor não se denunciava em momento algum.

Ao final, eu estava pasmo. Sempre considerei que a meu amigo, embora dedicado, inteligente e interessantíssimo, faltasse o principal. Em uma palavra, talento. Pois eu estava errado. Não sei se talento se adquire com o tempo, mas, a julgar pela enorme mudança que se produziu em tão poucos meses, parece que sim. Aquele homem feito, barba no rosto, saíra de sua puberdade artística. Mas, supremo paradoxo, não passava a impressão de estar satisfeito.

Expus-lhe meus sentimentos. Fui direto, claro e honesto. “É, disparado, a melhor coisa que você já me deu para ler”. Mas ele não quis acreditar. Achou que eu só queria ser simpático. Para ele, aquele texto não tinha a mesma honestidade dos anteriores. Faltava-lhe a espontaneidade. Para ele, talvez. Para o leitor, era uma peça única e completa. Prescindia de qualquer mudança. Era assim que eu pensava. Mas ele ainda estava preso à idéia de que o escritor deve jogar as coisas sobre o papel, “simples assim”.

Partiu sem se convencer. Espero que tenha refletido sobre o assunto. Quanta gente não há por aí, que apenas joga as coisas no papel, posa com a bituca de cigarro e reclama o cetro do gênio? Nada de especial. Não é à toa que o mercado é tão fechado. Não há comporta que segure tanta mente brilhante. Querem crer na escrita automática, mas onde ela foi parar? Morreu com os surrealistas. Todos acham que são Ginsberg, Bukowski ou Kerouac, como se sabe. Mas quantos querem perder o fígado ou ser perseguidos pelo buraco da conta bancária, em nome de uma escrita irresistível e inigualável?

Tive a rara oportunidade de ver, à minha frente, um escrevinhador se transformando em escritor. É como a metamorfose de uma crisálida, pode-se dizer. É o tipo de processo pelo qual passaram os grandes, de Capote a Céline, de Proust a Faulkner, de Machado a Mann, de Guimarães a Joyce. Por que meu triste colega seria uma exceção? Por que ele nasceria pronto? Resposta: não seria. Não nasceria.

Expliquei-lhe minha posição ainda hoje. Ele segue sem se convencer. Não se importa o que eu lhe diga. Que tento ler gente que está se lançando, mas jamais me satisfaço. Que vejo muitos autores promovendo seus livros, mas raramente ouço de algum que o burile até a exaustão. Não é à toa que não conseguem ser levados a sério, a não ser por alguns amigos. Não é à toa que não conseguem tiragem, críticas, repercussão. Querem subir no pódio de uma competição fácil, como se todos os seus ancestrais que morreram pela arte, de tuberculose, sífilis ou até fome, fossem todos uns levianos.

É por isso que tenho esperanças de que esse meu colega possa vir a ser uma exceção. Se, naturalmente, estiver disposto a seguir a trilha até o final. Caso contrário, melhor desistir enquanto é tempo. Amanhã, quando o reencontrar, vou propor uma aposta: que escreva um livro inteiro, pouco importa o quanto vai demorar, com essa sua nova prática. Que sofra, que queira desistir, que caia doente, prefiro nem ficar sabendo. Mas, ao terminar, que ele submeta o resultado, mais uma vez, às suas editoras favoritas. E veremos o que acontecerá.

A orquestra política, nós e os Caveiras

Postado em September 27, 2007
Categoria: Cinema, Filosofia, Política | 8 comentários

Conforme promessa feita no Para Ler Sem Olhar, eis o texto sobre “Tropa de Choque”, de José Padilha, o filme que o Brasil inteiro viu antes do lançamento (e uma parte da França, também). Explicações sobre como uma cópia, tão pirata quanto todas as demais, veio parar na minha mão, você encontra lá no outro blog, se quiser. Neste aqui, ficam apenas as considerações que consigo fazer, à distância, claro, sobre o fenômeno retratado na película: um batalhão escolhido a dedo; em tese, incorruptível; treinado como o rigor das elites dos maiores exércitos do mundo; violento e implacável; torturador e justiceiro. Mas, sobretudo, inconceb